Por mais que o vaivém de altas e baixas na Bolsa de Valores assuste alguns acionistas, colocar dinheiro no mercado de capitais é considerado uma forma interessante de garantir receita no futuro. Isso porque a renda variável é um investimento de longo prazo: você compra ações de empresas sólidas e espera 15, 20 anos para essa quantia se multiplicar – naturalmente, estando sempre bem informado sobre a empresa. Alguém que comprou uma ação ON da Vale em janeiro de 1997, por exemplo, viu esse papel se valorizar 111% até janeiro de 2011. O problema é que, assim como acontece quando se trata de gastar dinheiro e adquirir bens de consumo, muitos entram no mercado de capitais sem a paciência necessária para aguardar o retorno. No caso da Bolsa, saber esperar a ação valorizar ao longo dos anos é o grande segredo dos bons investidores. Já em uma compra, a peça-chave é aguardar para encontrar o melhor preço.
A psicóloga Valéria Meirelles, que estuda Psicologia do Dinheiro, explica que a dificuldade de esperar faz parte do ser humano e não é algo só relacionado a investimentos ou aquisições. É muito comum encontrar pessoas que preferem pagar juros ao longo do tempo e usufruir imediatamente o objeto de desejo, ao invés de poupar e investir para ter o produto à vista no futuro. Nesse contexto, é o comportamento emocional que vai determinar se alguém é capaz de esperar ou se faz parte do time dos que entram em desespero quando a ação começa a cair.
O fator psicológico interfere consideravelmente nas decisões relacionadas a investimentos. Não somos tão racionais quanto pensamos, já que nossas escolhas são influenciadas por elementos como história de vida, personalidade e experiência. “Racionalidade é algo que se espera no comportamento humano, principalmente em relação a dinheiro, mas não se tem por essas razões”, explica Valéria. O também psicólogo Waldemar Magaldi Filho, autor do livro “Dinheiro, saúde e sagrado”, concorda que o fator emocional tem uma vasta influência quando se lida com investimentos. “É preciso ter um perfil mais favorável para ser investidor. Caso não tenha, não adianta entrar nesse jogo financeiro. Melhor terceirizar para quem sabe lidar”, aponta Magaldi.
Perigo – Uma coisa é certa, quem entra na Bolsa com a postura de investidor de longo prazo fica sossegado com as variações no preço das ações. Mas quem não tem esse perfil pode cair na armadilha da especulação, vendendo e comprando toda semana, de olho no lucro de curto prazo. Para os incautos, é aí que está o perigo. “O problema comportamental é absurdo. A pessoa tem insônia, não se relaciona, fica fissurada, viciada mesmo. Permanece 10h por dia na frente do monitor, lendo tudo que existe sobre Bolsa, a opinião de analistas...”, conta Magaldi.
Quem não consegue medir o tempo e quer ver resultados rapidamente corre o risco de virar fanático. A vida vira só o investimento e mais nada. Além disso, a especulação excessiva pode causar problemas físicos como gastrite, hipertensão, dores musculares de causa inespecífica e até mesmo depressão, como argumenta o autor de “Dinheiro, saúde e sagrado”. Valéria recomenda que cada pessoa identifique o problema que tem e depois construa mecanismos que ajudem a combater isso. Se alguém é ansioso em excesso pode tentar descarregar isso com exercícios físicos ou fazer terapia, por exemplo.
A psicóloga explica que conhece pessoas que sabem que têm dificuldade para lidar com dinheiro e, por isso, já colocam a aplicação mensal no débito automático. O objetivo é não ter aquele valor na mão, porque vai acabar gastando. “É um comportamento de falar ‘olha, reconheço que sou ansioso, não posso fazer tal coisa, e, sabendo que sou assim, já programo minha conta”, afirma Valéria. Ela mesma garante não possuir “sangue” para investir em ações.
Espera consciente – Um investidor saudável é aquele que está ancorado no momento atual. Waldemar Magaldi explica que é preciso fazer “do presente um presente”. Segundo o psicólogo, quem acha que sempre pode tirar mais e mais vantagem do investimento e deixa de viver se sacrifica na espera de um amanhã que nunca chega. Por outro lado, há os que ficam só no passado e, por causa de traumas, deixam de fazer com seu dinheiro coisas que deveriam ser feitas. “Tem que viver o aqui e agora sem perder a dimensão temporal”, garante Magaldi. Ele diz ainda que quando o investidor não percebe o movimento ao seu redor, entra ou sai na hora errada. Sendo assim, nada melhor do que equilíbrio e paciência para evitar desastres. Que tal ter isso em mente neste ano de 2012?