Presente no mercado há quase 40 anos, a Arezzo é uma marca de sapatos famosa. Mas nem todos conhecem a empresa Arezzo&Co, que tem em sua plataforma quatro marcas - Arezzo, Schutz, Alexandre Birman e Anacapri - e fez a primeira oferta primária de ações na Bolsa (IPO) em fevereiro deste ano. Foram emitidas 29.779.413 ações ON e captados R$ 565,8 milhões. Desse valor, cerca de R$ 370 milhões foram para os bolsos dos controladores da companhia, Anderson Birman, seu filho Alexandre Birman e o fundo Tarpon. Os demais R$ 195,6 milhões estão servindo para financiar o crescimento da rede. Na época do IPO, os papéis foram vendidos no topo do intervalo estimado, R$ 19,00. Desde então, já houve apreciação de mais de 28% e em meados de junho elas estavam valendo R$ 24,45. Para efeito de comparação, nesse mesmo período, o Ibovespa desvalorizou 5,8%. Confira a seguir um pouco mais a respeito da empresa e saiba quais as perspectivas do mercado para suas ações!
Panorama positivo – De acordo com o professor da Trevisan Escola de Negócios Roberto Gonzalez, a Arezzo é um exemplo de adaptação diante de um concorrente forte. “A indústria brasileira calçadista acabou tendo que investir em design, sair do ‘basicão’, para conseguir concorrer com os produtos chineses”, explica. Segundo o especialista, ela foi uma das únicas empresas a alcançar este objetivo, e o mercado entendeu. Por isso, o market share (participação no mercado) da empresa tem aumentado, e as ações, valorizado.
Conforme estimativas da Arezzo, o market share cresceu de 4,7% em 2007 para 11,1% em 2010. Em relação ao número de lojas próprias, o número passou de seis, em 2007, para 29 no primeiro trimestre do ano. No total, são mais de 2.000 pontos de venda, incluindo as 267 franquias, três outlets, e lojas multimarcas.
Dados da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) mostram que a produção nacional do setor no ano passado foi de 894 milhões de pares, com valor total de R$ 21,7 bilhões. No mesmo período, a Arezzo&Co produziu 6,4 milhões de pares, além de 412 mil bolsas, em sete coleções diferentes lançadas no ano. O lucro líquido em 2010 foi de R$ 64,5 milhões, e o crescimento, de 32,4% em relação a 2009. No primeiro trimestre desse ano, a empresa lucrou R$ 14,7 milhões, valor 42% maior que o do mesmo período do ano passado. É importante lembrar que, além do bom desempenho do mercado interno, a companhia é a maior marca de calçados femininos fashion da América Latina, e exporta seus sapatos para diversos países – Estados Unidos, Uruguai, Equador, Chile, França, Inglaterra, China, Emirados Árabes, entre outros. Também possui lojas no exterior e suas vendas alcançam cerca de 50 países.
Consumo em alta – Quanto às expectativas de consumo, fundamentais para movimentar as vendas futuras – apesar das medidas prudenciais do governo brasileiro, que visam conter o crédito e a expansão da economia –, os especialistas acreditam que a nova classe média ainda tem um grande potencial de compra. E mesmo com a represália de crédito, isso deve significar aumento de gastos. “A não ser que ocorra uma nova crise internacional, que afete o comércio como um todo, vai haver o crescimento”, afirma Roberto Gonzalez, da Trevisan.
Neste cenário, a Arezzo está investindo nas classes sociais ascendentes, com produtos em diferentes faixas de preço para atingir mais consumidores. A original Arezzo é responsável por 68% da renda, e seus calçados têm o preço médio de R$ 170. A Schutz foi criada em 1995, responde por 27% da renda, e tem o preço médio de R$ 270. A Anacapri foi criada em 2008 e tem uma linha mais pop e acessível, com preço médio de R$ 99. Já a Alexandre Birman, criada em 2009, é uma marca que privilegia o design e a exclusividade, e seus calçados custam em média R$ 900.
Preço justo – O panorama positivo deve refletir nos números. Para o professor Aquiles Rocha de Farias, do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec-DF), as boas perspectivas somadas à robustez dos resultados indicam que a ação é uma boa sugestão de compra. Porém, por ser “recém negociada”, ainda está passando por um processo de acomodação do preço. “Até que os investidores comecem a perceber a liquidez da ação, ela fica em um nível que não é justo no médio e longo prazo”, completa. Ele prevê que até o fim do ano os papéis valorizem mais ainda e atinjam o patamar dos R$ 28.
Pelemania: Imagem requer cuidados
A Arezzo&Co pode ir muito bem na Bolsa, mas a imagem da empresa na mídia brasileira sofreu um baque alguns meses depois do IPO. Em meados de abril, a marca Arezzo lançou uma coleção nova em suas lojas chamada Pelemania, com sapatos, bolsas e acessórios que apresentavam peles de coelho e raposa.
A reação dos consumidores foi imediata e, em redes sociais como Twitter e Facebook, houve centenas de reclamações e protestos contra o uso de peles de animais. Alguns dias depois, a presidência da empresa divulgou um comunicado pedindo desculpas, e todos os produtos da linha foram retirados das lojas.
O incidente não repercutiu severamente nas ações, que continuaram estáveis e valorizadas, mas muitos investidores deixaram de recomendar a compra dos papéis devido à questão da sustentabilidade. "Prefiro ganhar dinheiro com a minha consciência tranquila", ressaltou o professor Roberto Gonzales, da Trevisan, afirmando ser um dos que se recusam a investir na empresa.
Já o professor Aquiles Rocha de Farias afirma que o caso teve um lado negativo a princípio, com os protestos e a suspensão da linha. Entretanto, aponta que a polêmica acabou tendo um efeito positivo ao colocar a marca em evidência, o que acabou sendo importante para a área financeira.