Em 1989, o empresário Abilio Diniz ganhou as manchetes de todos os jornais por um motivo não muito agradável: em uma manhã de segunda-feira, ele foi sequestrado em São Paulo enquanto se dirigia a seu escritório. O caso ganhou repercussão internacional e mobilizou as forças policiais. Graças à investigação, Abilio foi encontrado seis dias depois em um cativeiro e todos os dez sequestradores – quatro chilenos, três argentinos, dois canadenses e um brasileiro, pertencentes ao Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR), do Chile – foram presos. Se o nome do atual presidente do Conselho de Administração do Grupo Pão de Açúcar já era famoso antes de virar caso de polícia, o valor pedido como resgate na época é mais um indicativo da importância desse empresário paulistano: US$ 30 milhões.
O sequestro pode ter marcado a trajetória de Abilio, mas o motivo pelo qual ele ficou realmente conhecido é outro: a habilidade na condução da companhia que herdou do pai, onde trabalhou desde jovem e que transformou em um dos maiores nomes do varejo brasileiro. Uma habilidade que ficou ainda mais evidente quando ele conduziu com sucesso a reestruturação do Pão de Açúcar, mergulhado em uma grave crise provocada por brigas de família na virada dos anos 80 para os 90. A situação era tão ruim que a companhia chegou quase à bancarrota em 1990. O racha entre os herdeiros que disputavam a sucessão do grupo só foi resolvido em 1994, com a assinatura de um acordo que garantia a Abilio o controle da empresa. Contudo, o trabalho de reestruturação do Pão de Açúcar começou antes.
Sob o comando do empresário, o grupo passou a vender em 1990 tudo que não era ligado a varejo, reduzindo despesas e investimentos com o lema “corte, concentre e simplifique”. Dois anos depois, a Companhia Brasileira de Distribuição – que reúne os negócios do Pão de Açúcar – já havia recuperado grande parte de seu poder e era a segunda maior rede de supermercados do País em vendas brutas. O número de lojas era de 262, uma redução de 41% na comparação com as 626 que chegou a ter em 1985. Em 1995, o complexo processo de reestruturação foi finalizado e a CBD abriu capital no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa. Abilio passou a ser presidente da companhia.
Em 2003, deixou a direção executiva do Grupo Pão de Açúcar em uma tentativa de profissionalizar a companhia. Essa, no entanto, foi uma má decisão. Arrependido, Abilio voltou para colocar as coisas em ordem, processo que só foi concluído com sucesso em 2008. Hoje, aos 75 anos e definitivamente afastado do comando direto, sua imagem segue fortemente associada à empresa na qual trabalhou a vida inteira e que ajudou a reerguer. Atualmente, a companhia é o maior grupo de distribuição da América Latina – graças também à compra do PontoFrio e à fusão com as Casas Bahia. Abilio ainda tem poder, e não é pouco. Prova disso foi sua tentativa, no meio do ano, de fundir as operações do Pão de Açúcar com as do Carrefour no Brasil. O negócio foi emperrado pelo grupo francês Casino, sócio da CBD desde 1999, mas é uma boa demonstração de que o homem forte da CBD está muito longe da aposentadoria.
Destino natural – Abilio Diniz era o herdeiro óbvio de seu pai e fundador do Pão de Açúcar, o imigrante português Valentim dos Santos Diniz. Em 1948, ele abriu uma doceria na Avenida Brigadeiro Luis Antônio e continuou expandindo o negócio nos anos seguintes, com a inauguração de outras filiais. Quando os negócios da família começaram, Abilio já tinha 12 anos e foi iniciado desde cedo pelo pai no comércio. Em 1956, entrou para a faculdade de Administração de Empresas na ainda incipiente Fundação Getulio Vargas – fez parte da segunda turma do curso. Depois de formado quis fazer pós-graduação na Universidade de Michigan, mas Valentim o convidou para fazer parte de um novo tipo de negócio. Abilio topou, assumiu um cargo executivo na empresa familiar e, em 1959, o Pão de Açúcar abriu seu primeiro supermercado. Quase uma década depois, a rede já tinha 40 supermercados e 1.642 funcionários, enquanto Abilio Diniz se destacava como executivo.
A partir daí o grupo não parou de crescer, graças, em grande parte, a aquisições de outros supermercados e a inovações como hipermercados e lojas de conveniência. Com o acordo societário firmado entre os herdeiros, Abilio, o mais velho, ficou com o controle majoritário, Valentim e a esposa se tornaram sócios minoritários, com 36,5% das ações, e a irmã Lucília manteve 12% das ações. Os outros quatro irmãos (Alcides, Arnaldo, Vera Lúcia e Sônia Maria) venderam suas participações. Além da crise enfrentada no final dos anos 1980, também macula a história de sucesso da companhia a parceria celebrada com o Casino – outra tentativa de superar uma crise, já que o grupo francês injetou, na época da venda da participação, R$ 2 bilhões no Pão de Açúcar.
Vida equilibrada – Abilio Diniz é um esportista inato. Quando garoto, jogava futebol e lutava artes marciais, e nunca parou de se exercitar – tanto que em 1994 correu pela primeira vez a maratona de Nova York. É pai de seis filhos: Ana Maria (que é sua provável sucessora no Pão de Açúcar), João Paulo, Pedro Paulo e Adriana, todos adultos e frutos de seu primeiro casamento; e Rafaela e Miguel, ainda crianças. Além de empresário de destaque no cenário brasileiro, Abilio foi membro do Conselho Monetário Nacional entre 1979 e 1989, a convite do amigo Mário Henrique Simonsen. Entre os aspectos negativos de seu currículo, foi condenado na Justiça em 1996, acusado de uma operação de empréstimo considerada ilegal, mas depois absolvido. Mesmo assim, é considerado um dos maiores executivos da história do varejo nacional – e quem pode dizer o contrário?
PERFIL: COMPANHIA BRASILEIRA DE DISTRIBUIÇÃO (GRUPO PÃO DE AÇÚCAR)
Ano de fundação: 1948;
Sede: São Paulo, SP;
Fundador: Valentim dos Santos Diniz;
Número de lojas: mais de 1.800;
Colaboradores: 56 mil;
Presença: em 19 estados (SP, RJ, MG, TO, GO, PR, SC, RS, MS, MT, ES, BA, PI, SE, AL, PE, PB, RN, CE e DF);
Colaboradores: mais de 140 mil;
Faturamento: R$ 36,1 bilhões em 2010.