É sempre assim: quando o mercado sobe, todo mundo fica feliz; quando cai, é só tristeza. Neste artigo, pretendo dar algumas dicas de como se comportar no mercado, com uma abordagem mais suave. Aliás, com “Arte Suave” – opa! Mas isso é nome de luta!
Lá está você no ringue e o apresentador narra (com toda a ênfase que o cara sabe dar):
- No canto direito, VOCÊ! Com alguns Reais de peso e medindo outros poucos Reais. No canto esquerdo, MERCADO! O campeão (os espectadores vão ao delírio, é uma gritaria só) medindo bilhões de Reais e pesando trilhões de dólares (mas vale dólar nessa briga?).
Não só parece, como realmente é uma covardia. Mas você se inscreveu no absoluto, que, aliás, é a única categoria disponível para inscrição. Agora, você, nervoso, lembra de algo que pode te ajudar: “Ah, serei meu melhor amigo! Eu dormi cedo, comi Sucrilhos com banana pela manhã e estou disposto, aliás, disposição é o que não falta”.
Depois desse breve pensamento, soa o gongo e você parte com tudo. Não passam três segundos sequer e o juiz interrompe a luta por nocaute. Assim que você acorda no vestiário, decide que, a partir daquele momento, só irá participar da caderneta de poupança, pois talvez não machuque tanto. Mas espera! Vai se deixar sair derrotado? E o glamour e as conquistas? Você é arrojado, a poupança é para quando estiver jogando bocha. Hoje você quer correr, voar... Sua disposição volta rapidamente e surge, então, a brilhante idéia: “Vou treinar para ganhar mais uns Reais de peso. Assim será mais fácil vencer o campeão”.
Essa reação não é exclusividade sua. Todos, sem exceção, fazem isso. Repare em seu filho no judô. No primeiro exame de troca de faixas ele vai para luta pensando que é uma “tartaruga ninja” e parte com tudo para cima do outro menino, que é um pouco mais graduado. Não preciso falar o desfecho. Apenas muita disposição contra técnica só pode dar errado.
Voltando ao seu embate com o mercado, vamos pensar no seguinte: um confronto direto é impossível e você já descobriu isso da pior forma. Mas se você está lendo este artigo é porque deve ter alguma técnica e já treinou os golpes. Entretanto, uma coisa é treinar e entender os golpes, outra muito diferente é saber usá-los em uma luta.
Vamos utilizar como exemplo um lutador que eu admiro, Rickyson Gracie. Por que esse cara nunca perde? O que ele faz? Rickyson raramente aborda de maneira direta seu adversário e nunca o subestima. Ele vai estudando, cozinhando, até que... PAM! O cara está pego! Ele leva esse tempo para entender onde o adversário se deixaria render e, no segundo em que o rival vacila, lá está Rickyson, no pescoço ou no braço, levando a luta para onde ele quer rumo à vitória! Eu poderia fazer qualquer outra comparação aqui ou ser filosófico, mas me pareceu pertinente fazer essa associação.
O que eu quero dizer é que não é necessário testar o mercado todo dia, nem ter posições 24 horas. O melhor é saber esperar a hora certa. Muitas possibilidades aparecem até que eu esteja devidamente confortável para tomar posições. Além do mais, se você sempre operar, ficará cansado e vulnerável. Antes de uma luta é bom estar descansado, com a cabeça limpa de preocupações para poder funcionar, especialmente, contra o adversário mais forte e mais pesado (como comentado anteriormente).
Falando em cabeça, já viu a profunda preparação psicológica de um lutador antes de uma luta? Ele tem que estar totalmente concentrado no embate. E, para isso, tenho algumas dicas. Uma delas é: nunca opere tudo em um papel. Vamos imaginar que você acertou (como já aconteceu) 38 operações seguidas. Em um primeiro momento, você sente como se pudesse fazer o que quisesse com o mercado, mas basta uma, só uma operação - como a que aconteceu com CESP na tentativa de privatização -, para que você devolva tudo o que ganhou em todas as outras.
Se quando você entrar em uma operação tiver na cabeça que, de uma hora para outra, aquele papel pode quebrar, dificilmente vai colocar mais do que 10% naquela operação. Isso é uma boa coisa para se pensar, porque te deixa atento e rápido. É como se o Mike Tyson estivesse sempre pronto para te socar e não pense que isso NUNCA VAI ACONTECER. Um erro pode ocorrer uma só vez, mas será o bastante para quebrar você ao meio. E se isso se concretizar, você não luta mais.
No meio do combate, você se verá em diversas posições. Aparentemente, terá estudado bem o adversário e decidido por uma abordagem que pode não se mostrar eficiente. Sabendo que por esse caminho você vai levar a maior surra, não tenha receio de parar, recuar, estudar e tentar outra alternativa. Isso é o STOP do qual tanto falo! Não deu por ali? Volte e tente mais uma vez de outro jeito. Isso não impedirá que você leve um soco ou outro, mas, ainda assim, terá toda a possibilidade de vencer. Agora, no caso de uma surra, suas chances são nulas.
Também não adianta ter 356 mil papéis diferentes e, de novo, ficar 100% comprado. Sempre vai aparecer uma oportunidade única e você não vai ter caixa, (imagina se a Bolsa chama margem em alguma posição que não foi a seu favor no inicio). Então, sempre tenha caixa. Essa dica é ainda mais importante para quem opera Clube de Investimento. Imagine que no meio daquele lindo long short você tenha que pagar um resgate de um cotista que você não esperava! É de arrancar os cabelos ter que desmontar e ver o long short ajustar.
Nos próximos artigos irei abordar outras técnicas não citadas por aqui. Dessa vez, a mensagem que deixo é: saber ficar fora do mercado é mais difícil do que saber entrar e, quando souber fazer isso, deixará de ser “O Gafanhoto” para se tornar um mestre faixa preta. Enfim, saberá lutar sem fazer força.