Na última semana de julho, a Braskem realizou sua primeira captação externa com vencimento para 2041. Dessa forma, a empresa ingressou no seleto grupo de emissores que possuem papéis de dívida com 30 anos de duração. Há somente outras três: Vale (a primeira a emitir um título do tipo, em 2004), Petrobras e Votorantim. Mas você, investidor, sabe o que isso significa?
Para começar, emissões de longuíssimo prazo indicam companhias com potencial, como explica o professor de economia da Faculdade Rio Branco Carlos Eduardo Stempniewski. “Isso mostra que a empresa possui solidez, continuidade em longo prazo e baixo risco no modelo de negócios”, afirma ele.
O economista e diretor da Faculdade de Administração da FAAP, Tharcísio Souza Santos, complementa: “É uma demonstração clara de que a companhia está inserida em um panorama muito bom, com perspectivas duradouras”.
Para quem pode – Os especialistas dizem que este tipo de operação é realizado apenas por empresas avaliadas com grau de investimento por agências de classificação como a Fitch Ratings, Moody's e Standard & Poor's. Conquistar esse status é considerado um marco para o crescimento econômico da companhia, já que os ratings são um fator muito utilizado pelos investidores na oferta de recursos financeiros.
Com a classificação de grau de investimento, as companhias passam a ser vistas como menos arriscadas e, com isso, podem captar dinheiro com vencimento em longo prazo. O intuito da classificação é mostrar que o risco de perda é menor para títulos de determinadas empresas, dando subsídio para que os investidores tenham ciência do risco potencial de crédito que irão assumir.
E no caso do investidor? – Quando nos referimos a títulos de dívida, tais quais os emitidos pela Braskem, apontamos para grandes investidores, bancos e fundos. Mas a teoria que vale para eles na tomada de decisão do investimento é a mesma que para o pequeno investidor na Bolsa.
Neste caso, o fator tempo é muito importante. É o contrário do que acontece com o especulador, que aplica seu dinheiro pensando em obter lucro rápido e não leva em conta o crescimento da empresa a longo prazo. Por esta razão, quem investe pensando em colher os louros em algumas décadas verá o risco do investimento diluído. Mas, de qualquer forma, é preciso cuidado ao optar.
Tharcísio Souza Santos, da FAAP, recomenda que o investidor avalie sempre o risco e a remuneração, comparando com as alternativas existentes no mercado. Já o professor Carlos Eduardo Stempniewski sugere observar a governança corporativa e a política de dividendos da companhia. “A captação de longo prazo não imobiliza recursos do giro permanente e atua como um agregador dos ativos, que uma vez em operação, aumentarão o faturamento e, por consequência, a capacidade de gerar receitas”, explica. Ele também completa que mais faturamento com melhores margens operacionais resulta em mais lucro, mais dividendos e na valorização da ação. Portanto, é só vantagem para os detentores dos papéis da empresa.
Crise global não altera apetite do mercado - No caso da operação realizada recentemente pela Braskem, nem mesmo as incertezas em relação aos problemas fiscais que atingem países da Europa e à dívida pública dos EUA dificultaram o processo.
Isso se deve ao fato do Brasil estar menos dependente da situação externa, sendo considerado pelos investidores um país mais seguro, ainda que o clima seja de cautela. Em 2011, as captações externas, realizadas por empresas, instituições financeiras e pelo Tesouro, já somam US$ 32,628 bilhões.
Para Tharcísio Souza Santos, a captação com longo prazo de vencimento é uma tendência que acontece na medida em que o mercado de capitais fica mais maduro e que a dívida pública diminui em relação ao PIB.
Stempniewski complementa: “O ideal seria que mais empresas brasileiras tivessem capacidade de fazer captações a prazos longos, pois impactaria positivamente nas suas possibilidades de investimentos, sobretudo na área de infraestrutura, que é tão carente no Brasil”, finaliza.
As quatro poderosas
Confira qual o rating que as agências internacionais atribuíram às empresas brasileiras que emitem títulos de longuíssimo prazo:
• VOTORANTIM: BBB-, pela Fitch Ratings;
• PETROBRAS: BBB-, pela Standard & Poor's;
• BRASKEM: Baa3, pela Moody’s; BBB-, pela Standard & Poor’s;
• VALE: Baa3, pela Moody's; BBB+, Standard & Poor’s; BBB-, pela Fitch Ratings.