Muitos investidores menosprezam os dividendos: acreditam que é muito pouco para valer a pena investir pensando neles. A primeira vista, parece verdade. Afinal, quando olhamos o quanto cada empresa paga a cada ano, a situação parece decepcionante: nos últimos 12 meses, a Vale pagou 5,9% do capital investido em dividendos (VALE5); a Petrobras, 4,2% (PETR4) e a Ambev (AMBV4), 2,9%. Bem menos do que a poupança. Mas examinar apenas a relação entre o valor pago em dividendos/juros sobre o capital e o preço da ação para chegar a essa conclusão é enganoso: os dividendos podem, sim, levar a ganhos espetaculares no futuro. Com paciência e a escolha de empresas lucrativas, é possível apostar em uma aposentadoria tranquila.
Entendendo o dividend yield
No jargão do mercado, ao se falar em dividendos, o primeiro indicador que vem à mente é o dividend yield. Para calculá-lo, é muito simples: basta dividir o valor pago em dividendos ou em juros sobre o capital por ação pelo preço de uma ação. Por exemplo, se uma determinada empresa pagou R$ 0,20 em dividendos por ação nos últimos doze meses e se cada ação dela está sendo negociada por R$ 2,00, isso significa que seu dividend yield é de 10% (pois 0,20 dividido por 2 é igual a 10%). O dividend yield mede, assim, a rentabilidade da ação em termos de dividendos.
Mas é um engano comparar tão superficialmente o dividend yield com investimentos em renda fixa. Mesmo com um dividend yield baixo, como 3% ou 4% anuais, pode levar a uma renda bastante superior a juros de 7% ou 8% na poupança, ou de 10% a 11% no Tesouro Direto. Pois é, no estranho mundo das ações, 3% pode ser maior do que 10%. E isso pode acontecer em razão da natureza diferente dos dividendos em relação à poupança ou ao Tesouro Direto.
Ao investir na poupança ou em títulos do Tesouro Nacional, o investidor, na verdade, está fazendo um contrato de empréstimo: ele deixa seu patrimônio na mão de uma instituição em troca de juros. No caso da poupança, a maior parte do dinheiro é utilizada para financiar o sistema financeiro de habitação. Em troca, o investidor recebe 0,5% ao mês, acrescidos de um indexador, a TR.
Com relação aos dividendos, a situação é diferente: o investidor detém uma ação que lhe confere, entre outros, o direito de receber dividendos, que nada mais são do que uma parcela dos lucros da empresa paga aos acionistas. Pela legislação brasileira, como regra geral, as empresas são obrigadas a pagar 25% do seu lucro líquido em dividendos. Mas existem empresas que distribuem mais: em alguns casos, até 90% ou 95% do seu lucro líquido é distribuído constantemente na forma de dividendos. Em outras situações, os próprios estatutos da empresa a obrigam a distribuir um determinado percentual do seu lucro líquido.
Mas enquanto no mundo da renda fixa é praticamente certo o pagamento dos juros, no dos dividendos nada é certo. Pode ser que nem um centavo seja pago em um ano ruim ou acontecer de a empresa ter um ano excepcional e pagar três vezes mais dividendos do que no ano anterior. É essa característica dos dividendos que os torna capazes de superar, ao longo do tempo, o rendimento de produtos da renda fixa.
Como os dividendos podem assegurar a sua aposentadoria
O segredo de se aposentar com uma boa carteira de dividendos é, justamente, investir em ações que, mesmo que não paguem um dividend yield elevado, tenham um horizonte previsível de elevação de seu lucro, de modo que, a cada ano, ela pague mais dividendos do que no ano anterior. O ideal é investir em ações que consigam, com um patamar de dívida adequado, elevar seus lucros com consistência. E encontrar empresas com um perfil desses não é tão difícil.
Peguemos, a título de exemplo, o caso da Ambev (AMBV4). Empresa conhecida
de todos nós e com uma administração exemplar. Como você pode observar na tabela abaixo, o LPA (lucro por ação, que é calculado a partir da divisão do lucro líquido pelo número total de ações da empresa) apresentou tendência de crescimento constante. O LPA relativo a 2011 foi calculado com base nos últimos 4 trimestres da empresa, já que ainda não foram divulgados os dados relativos ao último trimestre. Como você também pode observar, os dividendos pagos por ação (DPA) também apresentaram forte crescimento, de aproximadamente 35,51% ao ano. E o dividend yield da empresa permaneceu sempre abaixo de 5%.

Vejamos como teria se saído alguém que tivesse comprado R$ 7.500,00 em ações da Ambev em 2002. A um preço de R$ 7,50 por ação, naquela época, seria possível comprar 1.000 ações da empresa. Como essa pessoa teria se saído, caso comparássemos os rendimentos com outros investimentos?Vejamos a seguinte tabela:

Nessa tabela estão representados os ganhos com dividendos de quem, hipoteticamente, investiu seu dinheiro nas ações da Ambev e de quem aplicou seu dinheiro em títulos que pagassem 8%, 10% e 12% de juros ao ano. Quem comprou as ações da Ambev, recebeu, ao final, quase R$ 8.000,00 em dividendos - para ser mais exato, R$ 7.966,86. Já quem investiu o dinheiro na poupança recebeu R$ 6.000,00. Ou seja, mesmo com um dividend yield inferior a 5%, os dividendos pagos pela empresa foram superiores aos obtidos pela poupança. A situação se repete quando comparamos os dividendos recebidos pela Ambev aos juros de um investimento com rentabilidade de 10% ao ano. Os dividendos só ficariam em desvantagem frente a um investimento que rendesse 12% ao ano, líquido de impostos.
Ainda que neste último cenário as ações do nosso exemplo apresentem resultado inferior, é importante considerar que juros superiores a 10% ao ano foram comuns nos últimos 15 anos, mas esta é uma realidade prestes a mudar. Ou seja, não é possível contar com juros tão altos por muito tempo. Além disso, se em 2012 e em 2013 as ações da Ambev pagassem apenas o que pagaram em 2011 (R$ 1.672,00 no caso do exemplo), o investidor que apostou na Ambev estaria em melhores condições do que quem investiu nos títulos que pagam 12% ao ano.
Por que isso ocorreu? Por que um dividend yield tão baixo foi capaz de produzir resultados superiores a títulos com juros mais elevados? Pelo simples fato de que a Ambev tem pagado, com consistência, mais dividendos a cada ano e a um ritmo relativamente acelerado. Para que você tenha uma ideia, em 2011, a Ambev pagou, em dividendos, um valor superior a 50% do pago em 2009. Ou seja, mesmo no presente, a taxa de crescimento dos dividendos se manteve bastante alta.
E falamos de apenas 10 anos, imagine o que poderia acontecer com quem tivesse investido há mais tempo nessas ações! No exemplo do texto, o investidor aplicou, de uma única vez, R$ 7.500,00 e dobrou o seu capital somente com o valor recebido a título de dividendos. Nem contei o ganho de capital com a apreciação da ação. Como as ações da Ambev (AMBV3) estão cotadas a R$ 51,97, o investidor teria ainda aumentado bastante seu patrimônio, que valeria, no presente, R$ 51.970,00, ou 21% de rentabilidade ao ano. Nada mal, não é? Imagine o que aconteceria se o investidor fosse mais diligente e adquirisse ações da empresa a cada mês! Decerto, já estaria milionário há bastante tempo!
Dividendos são uma grande ferramenta para construção de patrimônio no longo prazo e, por isso, essenciais para quem está planejando a aposentadoria! Não se esqueça deles ao montar sua carteira de investimentos!
*Como parte de minha política de transparência, informo que sou proprietário de ações da Ambev (AMBEV4). As ações mencionadas não significam recomendação de compra ou de venda de qualquer dos ativos.
Fábio Portela L. Almeida é mestre em direito constitucional e em filosofia pela UnB, e, atualmente, doutorando em direito pela mesmo instituição. Autodidata no mundo dos investimentos e autor do blog www.opequenoinvestidor.com.br , tem por objetivo compartilhar seus conhecimentos com qualquer pessoa que deseje aprender um pouco sobre como economizar e investir adequadamente seus recursos.
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