Considerada a empresa mais lucrativa em 2009 pela Economática, a Petrobras (PETR3; PETR4), que apresentou seus resultados na última sexta-feira, continuará sentindo o peso de sua aguardada capitalização. Essa é a opinião do economista e analista de mercado José Góes, diante do lucro de R$ 8,295 bilhões apurado no segundo trimestre pela companhia. O valor 1,7% superior a igual período de 2009 mal repercutiu no mercado. Em contrapartida, o nível de endividamento da empresa é agora o foco principal para quem investe nela.
“Os números apresentados foram bons, mas não superaram muito o que já era esperado pelo mercado. O EBTIDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) e a receita líquida vieram em linha com as expectativas, já a produção total aumentou 3% no primeiro semestre deste ano. Mas a questão-chave do papel continua sendo as incertezas em relação à capitalização”, diz José Góes.
Os investimentos da companhia, que chegaram a R$ 38,1 bilhões no 1º semestre do ano, também chamaram a atenção do especialista. “Houve uma desaceleração nos investimentos e acredito que continuará nesse ritmo até a capitalização. O endividamento cresceu e segue em um nível um pouco arriscado”, analisa.
Só para entender, o teto estipulado pelas agências classificadoras de risco com relação ao endividamento / patrimônio líquido é de 35%. Em 30 de junho a Petrobras registrou 34%. Vale lembrar que a empresa ainda não atingiu nem metade de sua meta de investimentos para o ano, que é de R$ 88,7 bilhões. Isso significa comprometer ainda mais o seu caixa e por essa razão a capitalização é vista como um divisor de águas.
Para ficar de olho
As cotações internacionais do petróleo deram aquele empurrãozinho ao balanço da Petrobras, por isso é importante acompanhá-las. Dados relativos aos estoques de petróleo são importantes indicadores do que pode acontecer com os preços, já que com eles é possível ter uma ideia de demanda. Além disso, segundo José Góes, o mercado interno foi fundamental para a estatal, portanto, vale também atentar-se aos indicadores domésticos. “O avanço na demanda de derivados no País, de 11% em relação ao primeiro semestre do ano passado e o aumento natural no preço do petróleo, que sofreu reflexos da crise em 2009, foram cruciais para o resultado da companhia”, explica.
Cessão onerosa e capitalização
“É difícil vislumbrar um cenário para o papel com as incertezas que rondam a cessão onerosa e a capitalização da Petrobras. O investidor que está disposto a investir no ativo deve ser um pouco mais cauteloso e aquele que já o possui agora pode segurá-lo mais um pouco, já que estamos na iminência dos processos, mas deve ficar sempre atento às notícias que saem a respeito desses procedimentos”, constata o economista.
A capitalização da Petrobras depende do preço final do barril de petróleo extraído do pré-sal, que será utilizado na cessão onerosa a ser realizada na próxima segunda-feira (23), conforme informou o ministro de Minas e Energia, Márcio Zimmermann.
Para a precificação do barril serão confrontados os preços propostos pelas certificadoras contratadas pela Agência Nacional de Petróleo (ANP) e pela própria companhia para analisar as reservas da União no pré-sal.
Com a capitalização marcada para o mês de setembro, o mercado aguarda ansiosamente pelo edital que trará mais detalhes sobre o processo. Estima-se que a operação será uma das maiores do mercado de capitais em todo o mundo, podendo variar entre US$ 60 bilhões e US$ 100 bilhões. “Depois da capitalização a empresa deve diminuir seu endividamento e aumentar os seus investimentos. Acredito que num médio prazo o papel possa voltar a ficar interessante”, diz o analista de mercado.
Confira os principais números apresentados pela Petrobras:
Lucro Líquido 2º tri/10: R$ 8,295 bilhões (+1,7% com relação ao 2º tri/09)
EBITDA 2º tri/10: R$ 15,927 bilhões (-9,5% com relação ao 2º tri/09)
Receita Líquida 2º tri/10: R$ 53,631 bilhões (+20,2% com relação ao 2º tri/09)
Investimentos 1º sem/10: R$ 38,1 bilhões (+17,3% com relação ao 1º sem/09)
Dívida Líquida 2º tri/10: R$ 94,2 bilhões (+16% com relação ao 2º tri/09)