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22/06/2011 19h41
JBS e a desconfiança do mercado
Por: Camila Maia
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 “Gostaria, e acredito que os leitores gostariam de saber, o porquê do papel JBS (JBSS3) não evoluir com as perspectivas de falta de carne no mundo, previsão esta para um futuro não tão distante”, enviada por Anderson Stedile do Amaral.

 

A desvalorização dos papéis do grupo JBS está mais ligada ao nível de endividamento da empresa do que ao cenário mundial para o comércio de carne bovina.  De acordo com José Góes, analista da WinTrade, o grupo cresceu muito em pouco tempo através de aquisições, não só no Brasil como mundo afora. “A empresa acabou assumindo uma dívida alta demais, e isso tem dificultado suas operações”, explica ele.

A JBS até consegue gerar lucro operacional, “mas perde boa parte por causa das dívidas”, aponta Góes. Ele acredita que enquanto a companhia não conseguir equacionar o endividamento, ainda deverá enfrentar esse tipo de problema. Desde o início do ano, os papéis já desvalorizaram mais de 25% e estão sendo negociados na faixa dos R$ 5 reais.

Além das dívidas, outro fator que prejudica as atividades do grupo é sua plataforma de atividades muito diversificadas. Além dos frigoríficos, a JBS está presente nas áreas da higiene e limpeza, couro, colágeno, lácteos, celulose e até mesmo no varejo bancário.  Para Góes isso atrapalha, pois os agentes de mercado preferem empresas focadas em um nicho específico. “Você tem que tentar focar os esforços nos mercados em que terá vantagem corporativa e operacional”, comenta.

Segundo o analista, o momento atual – em que o mercado está devagar e há maior aversão ao risco – não é favorável para o grupo, que provavelmente terá que rolar a dívida. “A empresa apresenta perspectivas positivas, porém, no curto prazo, ainda haverá certa desconfiança”, prevê ele, completando ainda que não recomendaria a compra do papel por conta dessas questões.

Desequilíbrio dos preços
 
Em relação ao mercado de carne bovina, as perspectivas não são de escassez, mas de alta de preços e migração do consumidor para fontes de proteína mais baratas, como suínos e aves. A Pesquisa de Produção Agrícola feita pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) prevê que no período compreendido entre 2010 e 2019 os preços médios de carne bovina devem superar a média vista entre 1997 e 2006. Já as carnes suína e de frango devem baratear ainda mais, devido ao aumento da oferta, o que fortalecerá o consumo delas, especialmente nos países em desenvolvimento.

O encarecimento da carne bovina registrado nos últimos anos foi consequência de problemas ocorridos nos lados da oferta e da demanda, aponta a professora Ignez Vidigal Lopes, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

O Brasil é um grande abastecedor mundial de carne bovina, mas enfrentou um ciclo de preços muito baixos que durou de meados da década de 90 até 2007. A situação desfavorável levou os produtores a reduzirem seus rebanhos, abatendo suas matrizes – isto é, as vacas reprodutoras. Quando isso acontece, “inicia-se um ciclo de menor oferta”, afirma Ignez. Para completar, são necessários cerca de três anos para recompor de novo o rebanho para abate.

De acordo com informações de Péricles Salazar, presidente executivo da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), no tempo que a entidade caracteriza como “dos grandes boicotes”, a arroba chegou a ser vendida por R$ 50, e depois o preço saltou para R$ 110. Hoje, está estabilizada em torno de R$ 90, o que, segundo a Abrafrigo, “trata-se de um preço bom e remunerador, que permite bons negócios, mantendo as matrizes no pasto e ampliando o rebanho”.

A professora da FGV prevê pelo menos mais um ano de preços altos. “Acho que vamos chegar a um equilíbrio, mas o preço será um pouco maior do que a média de 2008”, afirma.  Segundo a Abrafrigo, o quadro é animador para o produtor rural, mas o mesmo não acontece com os frigoríficos. “Eles ainda estão em dificuldades, e não têm conseguido estabelecer o preço”, afirma, revelando que a margem de lucro dos frigoríficos é muito baixa. “Quem ganha dinheiro são os varejistas, que vendem 70% da carne no Brasil”, aponta.

Fique de olho: Conseqüências do boicote russo

Por medidas sanitárias – e políticas, envolvendo a Organização Mundial do Comércio (OMC) – a Rússia bloqueou em 15 de junho a compra de carne de 85 frigoríficos brasileiros, entre os quais há unidades da JBS e de outras gigantes do ramo, como Marfrig e Brasil Foods.
 
No entanto, segundo a Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), empresas grandes como a JBS foram pouco afetadas pelo boicote, pois têm a opção de transferir as exportações para outras unidades que ficaram fora do bloqueio. De acordo com a entidade, quem seria afetado nessa situação são os pequenos frigoríficos, mas poucos deles exportam. “Então o boicote funciona mais como uma maneira de deixar as empresas vigilantes”, explica o presidente executivo da Abrafrigo, Péricles Salazar.

De fato, apenas três unidades da JBS foram afetadas, mas o grupo mantém as exportações a partir de outras oito fábricas instaladas em regiões que não foram incluídas no embargo.
 


Na matéria “JBS: Por que a gigante dos frigorífigos não decola” você sabe mais sobre as atividades do JBS e sua desvalorização na Bolsa.

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