O sobe e desce do câmbio, em especial do dólar, nunca deixa o mercado indiferente. Nos últimos meses, essa flutuação exigiu fôlego de quem acompanha a moeda. Ela saltou de R$ 1,50 no final de agosto para mais de R$ 1,90 no fim de setembro e, agora, finzinho de outubro, oscila perto de R$ 1,70. Mas será que existe uma cotação ideal que satisfaça a maior parte dos setores da economia? E como essa movimentação pode afetar os seus negócios e o seu bolso no curto prazo?
Sorte na exportação, azar na inflação - A dinâmica que eleva o preço do dólar e baixa o do Real, criada pela escassez de dólares dentro do Brasil em relação à demanda, favorece as empresas de exportação, que podem colocar seus produtos lá fora de forma mais atrativa. Os importadores, por outro lado, acabam perdendo terreno. Grupos que vendem commodities agrícolas, aço, minério de ferro e petróleo para o exterior estão entre aqueles que fazem torcida para que o dólar dispare. “Quando o Real fica muito caro, essas empresas perdem competitividade, o preço do produto fica mais caro lá fora", explica Erivaldo Vieira, professor de Economia da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP).
Mas se os exportadores ganham competitividade internacional, uma grande valorização do dólar provoca desequilíbrio no mercado interno brasileiro, puxando a alta dos preços. “O grande sonho dos exportadores é que a variação fique positiva para o dólar, que ele suba acima de R$1,90, mas isso causaria inflação interna”, diz Reginaldo Gonçalves, coordenador do curso de Ciências Contábeis da Faculdade Santa Marcelina. Já o setor Aéreo, por exemplo, é um dos que teriam suas operações afetadas. Pedro Janot, presidente da Azul, afirmou à imprensa que a recente disparada do dólar vai encarecer os custos da aviação – desvantagem que seria repassada para o consumidor, através do aumento das tarifas. "No geral, só os combustíveis respondem por 40% dos custos das companhias aéreas. É natural que a estrutura da aviação civil busque equiparar as tarifas a esse novo impacto de custo", alertou.
Um “excesso” nas exportações também poderia provocar menor oferta de produtos nas nossas prateleiras, outro aspecto que causaria elevação nos preços. “Com o Real barato, as exportadoras acabariam vendendo mais produtos de consumo interno, como frango, café, açúcar, e o mercado doméstico ficaria desabastecido, com falta de produtos e preços inflacionados, causando um impacto bastante negativo”, lembra o professor da Santa Marcelina.
Ajuda para os importados, prejuízo na indústria - No cenário oposto, de valorização do Real, são os negócios dos importadores que tendem a crescer, já que os produtos que vêm de fora entram no Brasil a um preço mais acessível. Empresas que importam bens estrangeiros e matérias-primas fabricadas lá fora, como peças usadas na indústria de tecnologia, têm um desempenho superior com a cotação do dólar baixa. “Esses bens ficam mais baratos. Se um carro entra no Brasil a 15 mil dólares, com um dólar valendo 1,50 reais, ele custa 22.500. Mas se o dólar sobe pra 1,95, ele vai para 29.250 reais”, exemplifica Vieira. E como não há ganhos de um lado que não impliquem em perdas do outro, é a indústria nacional que acaba arcando com prejuízos, já que se torna menos competitiva dentro do seu próprio país. “Os produtos estrangeiros acabam vindo a um preço menor do que o praticado aqui dentro, e isso desestimula a produção nacional”, explica o professor.
Conciliação de interesses – Manter essa montanha russa sob controle não é tarefa fácil, já que o câmbio flutuante faz com que a cotação das moedas seja ditada pelas leis básicas do mercado (de oferta e procura) e pela conjuntura econômica mundial. Nesta equação, contam também a especulação e o lobby feito pelas grandes companhias junto ao governo para que a paridade entre as duas moedas atinja um ponto favorável aos negócios. Assistir a essa imprevisível movimentação requer sangue frio tanto por parte de empresários como de investidores.
O fato é que encontrar uma “cotação ideal”, que agrade a maior parte dos setores da economia, é um dos desafios do Banco Central, que sempre intervém na questão cambial quando as cotações começam a preocupar os economistas. Foi o que aconteceu quando, no final de agosto, o dólar ficou barato demais, ameaçando a nossa produção interna. A compra de dólares para valorizar a moeda, no entanto, não pode deixar o preço do dólar disparar acima do que poderia representar riscos para inflação – o atual “teto” do Banco Central para a moeda americana é cerca de R$ 1,90. Assim, manter uma cotação perfeita, nem tão alta, nem tão baixa, ainda é um sonho distante!