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09/02/2010 17h46
O fantasma da crise volta a assombrar
Por: José Góes
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No auge da crise, em dezembro de 2008, lembro-me de ter pegado um táxi em São Paulo, cujo motorista afirmava que essa crise era uma grande armação da mídia e que o movimento de passageiros tinha até aumentado naquele mês. Lembro-me também que tentei argumentar contra, mas o indivíduo estava convencido! Quando comentei da queda da Bolsa, ele logo respondeu: “isso tudo é armação. Os manda-chuvas plantam umas notícias na imprensa, esperam a Bolsa cair e compram tudo muito mais barato...”

Na verdade, no início da crise, nem mesmo o presidente Lula tinha muita fé e chegou a afirmar que a crise dos países de homens de olhos azuis não passava de uma marolinha.

Passado pouco mais de um ano deste episódio, tenho certeza de que o taxista está convencido da sua teoria da conspiração e de que o presidente não se arrepende de sua afirmação. Acabou que a economia real brasileira se recuperou rapidamente. A renda e o emprego voltaram aos níveis de 2008 e o consumo das famílias não parou de crescer nestes 20 meses.

Para nós, investidores de ações, a história foi diferente. A Bolsa chacoalhou muito e, até hoje, o Ibovespa não conseguiu renovar a máxima de maio de 2008, quando o índice tocou os 74.000 pontos.

O Brasil, de fato, passa por um momento especial, que tem possibilitado atravessarmos esta turbulência sofrendo poucas avarias. É justamente este bom momento de nossa economia que tem nos dificultado a dimensionar a magnitude da crise pela qual ainda estamos passando. O período pelo qual a economia mundial atravessa tem sido, sistematicamente, comparado com a grande depressão dos anos 30. Felizmente, algumas lições da maior crise do capitalismo foram aprendidas e os erros não se repetiram na atual crise.

Os governos e Banco Centrais não titubearam, lançaram um arsenal de medidas para salvar bancos e seguradoras, além da ampliação dos gastos fiscais como forma de estimular a economia. As medidas surtiram efeito, acalmando os investidores e consumidores e fazendo com que as economias voltassem a crescer.

Entretanto, em economia, as tarefas não são tão simples e o cobertor, às vezes, é curto demais para salvar as instituições financeiras e estimular a atividade. Os governos foram obrigados a gastar demais, ampliando substancialmente seus déficits, o que levou alguns países a se depararem com outro problema: o enorme déficit fiscal, que tem aumentado a dívida pública das nações e levantado suspeitas a respeito da solvência destes governos.

A situação se agrava em países que não possuem uma moeda própria, onde os Bancos Centrais, muitas vezes, se vêem de mãos atadas, dependendo da atuação da autoridade monetária em prol do bloco como um todo. Esse é o caso de algumas economias pertencentes à União Européia.

Os PIIGS, sigla criada para Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha têm sido alvo de muita especulação e há temores de um possível calote por parte de seus governos. Isso porque, além de terem apresentado déficits públicos enormes em 2009 quando comparados aos respectivos PIBs (12,7% na Grécia; 9,3% em Portugal; 4,7% na Itália; 11,6% na Irlanda e 11,4% na Espanha), estão passando por um período de fraco desempenho econômico.

Se essas nações ao menos tivessem uma moeda própria e um câmbio flexível, suas divisas desvalorizariam, aumentando a competitividade de seus produtos e possibilitando um crescimento econômico voltado para o setor externo. Mas agora só lhes resta diminuir os gastos públicos e aumentar a arrecadação, medidas de caráter contracionista que, fatalmente, os levarão de volta para a recessão.

Especula-se uma ajuda de outros países da região do Euro, mas esse resgate seria extremamente oneroso financeira e politicamente. Ajudar a Grécia e Portugal seria até factível, mas Itália e Espanha, com economias bem maiores, seria muito mais complicado.

Apesar de o foco estar sobre os PIIGS, o problema do déficit público atormenta diversas economias ao redor do mundo e deverá dificultar a retomada destes países que estão tentando sair de um período de recessão. O governo dos EUA também aumentou muito seu endividamento e continua gerando perigosos déficits fiscais. A situação de alguns estados da maior economia do mundo também preocupa. Está muito difícil imaginar uma retomada consistente e prolongada da economia mundial neste momento.

Em suma, como já havia alertado em outros artigos, o Brasil passa por um momento excelente, mas não devemos subestimar a dimensão da crise que o mundo enfrenta. Afinal de contas, o Brasil está inserido na economia mundial, como um importante exportador de commodities e ainda dependente da poupança externa como fonte de financiamento de seus investimentos. O ideal mesmo seria que a aterrissagem da economia global se desse de maneira lenta, sem gerar maiores sequelas para o nosso País.

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