Quando o Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou, em 31 de agosto, que reduziria a taxa básica de juros do Brasil em meio ponto percentual – levando a taxa Selic ao patamar de 12% ao ano –, o mercado foi pego de surpresa. A expectativa geral era de que o Banco Central mantivesse ou aumentasse os juros, em linha com o que vinha sendo praticado pelo governo até então. A notícia foi recebida de forma positiva por boa parte dos agentes econômicos: associações industriais elogiaram a decisão e o Ibovespa disparou 2,87% no dia seguinte ao aumento. “A decisão do Copom indica uma mudança de paradigma, algo que pode ser visto como bom. Nossa política monetária sempre foi muito conservadora, e essa redução, junto com a expectativa de novos cortes nos juros, é uma mudança de consciência”, analisa José Kobori, professor de Economia do Ibmec do Distrito Federal. Mas em quê essa mudança interfere na sua vida, investidor? Entenda a seguir como a diminuição da Selic deve permitir um melhor desempenho da Bolsa de Valores, além de aumentar a produtividade do Brasil e o poder de consumo da população.
A Bolsa se torna mais atrativa – Um dos principais aspectos responsáveis pela rivalidade entre renda fixa e renda variável é a taxa de juros. Além dos juros altos pressionarem os resultados das empresas, diminuindo as expectativas dos acionistas, um aumento na taxa básica torna os investimentos em renda fixa uma opção mais rentável do que a Bolsa de Valores – pois a remuneração de grande parte da renda fixa é atrelada à Selic. “Os agentes tendem a extrair seus investimentos da Bolsa para aproveitar a alta de juros na renda fixa, transferindo parte do dinheiro para títulos públicos, CDBs e poupança”, afirma Ricardo Cintra, professor da Trevisan Escola de Negócios. Com o cenário oposto, a tendência é que o investidor comece a enxergar a Bolsa como uma alternativa mais interessante. Especialistas consideram que esse movimento deve começar a ser visto no mercado brasileiro, aliviando a Bovespa após um primeiro semestre marcado por severas quedas em meio às crises da dívida na Europa e à recessão nos Estados Unidos. Segundo José Kobori, a queda da Selic pode influenciar até mesmo o investimento externo. “Os estrangeiros gostam de investir no Brasil por causa da alta taxa de juros, mas se o sentimento de aversão ao risco aumentar no exterior é provável que eles possam vir para a Bolsa também”, aponta o professor do Ibmec.
O dinheiro fica mais barato – “Dinheiro é um produto, e o preço dele é a taxa de juros. Reduzindo o custo do dinheiro, vários setores são beneficiados”, explica Kobori. O setor industrial é um dos que mais lucram com a diminuição da taxa básica, o que gera grande entusiasmo na área. “A queda da Selic ajuda o mercado na medida em que reduz o custo de capital das empresas, e a diminuição do custo de oportunidade favorece o setor produtivo. Vai ficar mais barato tanto produzir quanto vender”, diz ele. Com a produção facilitada e condições de manter o nível de atividade em bons patamares, as empresas se tornam atraentes para os investidores, que enxergam oportunidades de crescimento e bons dividendos em médio e longo prazo. Além da indústria, empresas ligadas ao varejo interno e à construção também se destacam como as maiores beneficiadas pela queda da Selic. “Tendo em vista as boas perspectivas para essas companhias, e os demais reflexos positivos dessa baixa dos juros na economia em geral, o momento é bom para se posicionar nas empresas promissoras a longo prazo”, indica Kobori.
O Brasil vende pra quem quer (e pode) comprar – Com o mercado europeu e norte-americano apresentando baixo crescimento e retração no consumo, o comércio entre o Brasil e países emergentes como China e Índia se torna uma oportunidade de bons negócios para as companhias nacionais. “O cenário global não é favorável para quem vende para os países do Hemisfério Norte, que agora estão em crise, em baixo crescimento, com uma provável recessão a caminho”, analisa Kobori. Segundo o professor, o fato de o Brasil ser mais um exportador de commodities do que um vendedor de produtos de valor agregado – algo que sempre foi uma desvantagem para a economia nacional – hoje é uma qualidade: quem mais consome são os emergentes, e os emergentes querem commodities. “Eles estão agora fazendo sua transição para o capitalismo urbano, e para isso precisam de commodities, alimentos, material pra obras de infraestrutura, o que vem beneficiando o Brasil”, completa. Grandes exportadoras do setor, como Vale e CSN, devem ser favorecidas por esse comércio.
O consumidor gasta mais e mantém o País aquecido – As vantagens dos juros mais baixos também são sentidas do outro lado do balcão, com a redução no preço dos produtos e um maior acesso ao crédito. O incentivo ao consumo mantém a economia interna funcionando em um momento de instabilidade externa, tornando a indústria nacional menos suscetível à situação dos Estados Unidos e Europa. “O cenário interno tem uma demanda doméstica muito grande, que sustenta boa parte da produção interna. Desde 1994, com a criação do Real, estamos vivendo em um cenário de estabilidade econômica, que vem se fortalecendo desde então, em um círculo virtuoso de crescimento econômico. A alta de juros costuma minar esse movimento, então essa decisão do Banco Central aproveita o cenário externo pra cortar a Selic e evitar o desaquecimento da economia interna”, afirma Kobori.