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04/03/2010 15h58
O mito de comprar no fundo e vender no topo
Por: Maurício "Bastter" Hissa
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Todos sabem que no mercado há euforia no topo e depressão no fundo. Vimos isso em 2007, quando tivemos uma euforia descomunal e, em 2008, quando a depressão derreteu os mercados. Pois bem, se existe euforia no topo, é porque a maioria dos investidores está comprando e, se ocorre depressão no fundo, é porque o inverso está ocorrendo.

A mídia e os vários analistas despreparados que vendem planos de riqueza fácil no topo e o fim do mundo no fundo têm grande parcela de culpa sobre o despreparo dos investidores. Não há como o pequeno investidor resistir a tanta pressão. Todos que tentam vencer o mercado fatalmente acabarão por comprar no topo e vender no fundo até seu dinheiro acabar e serem expulsos da bolsa em alguns meses ou poucos anos. Se não fosse assim, não existiria topo e fundo, tampouco euforia e depressão.

O mercado não produz nada, vive de comissões, taxas e impostos. Os grandes investidores e instituições precisam de liquidez para a contraparte de suas operações. E daí vem a função da maioria dos pequenos investidores na bolsa que caem no conto do vigário da compra no fundo e venda no topo.

Por que é um conto do vigário?

Subentende-se que, comprando no fundo e vendendo no topo, você vai conseguir bater o mercado, o que mesmo entre os profissionais é difícil. Portanto, se nem a maioria dos especialistas consegue, imagine os amadores.

Como o mercado vive de comissões, taxas e impostos e os grandes precisam de liquidez para fechar suas operações, é necessário convencer os pequenos de que eles conseguirão comprar no fundo e vender no topo – afinal, alguém tem de pagar a conta. Convencendo-os disso, eles sustentarão o mercado e irão garantir seu bom funcionamento.

Por meio de análises com preçosalvo e dicas, publicações na mídia que trazem jovens que supostamente largaram seus empregos e ficaram ricos na bolsa (que só aparecem nos topos), ilusões das IPOs que dão 40% de lucro em um dia (que só aparecem também em épocas de euforia), a fantasia do day trade que dá 400 reais por dia e pela disseminação de ilusões nos fóruns por meio da internet, o pequeno investidor começa a acreditar que é capaz de vencer o mercado, e isso faz com que ele opere sem lembrar a sua função primordial na bolsa, que é se tornar sócio de grandes empresas e receber parte de seus lucros. O objetivo passa a ser fazer dinheiro na bolsa com a intenção de pagar as contas – o que é uma grande ilusão. Com isso, o investidor vai comprar e vender diversas vezes por dia para cumprir seu objetivo.

Duas grandes ilusões
Como o pequeno investidor eventualmente vai conseguir comprar no fundo ou vender no topo, a memória seletiva dos poucos acertos vai conduzi-lo para um longo período de tentativas frustradas. Somam-se a isso amostras viciadas e benchmarks equivocados que criam, muitas vezes, a falsa sensação de vitória. Num mercado em alta, mais acertos ocorrem, e isso faz com que o pequeno investidor iludido ache que encontrou um caminho, mas a amostra é pequena demais e dura apenas alguns meses.
 
Outra ilusão vem de comparar o saldo atual com o dinheiro que tinha antes. Como ele pode ter crescido durante um tempo, o investidor acredita que está vencendo, quando a comparação deveria ser com o que estaria acontecendo se, durante anos, ele estivesse acumulando uma carteira de boas ações e reaplicando dividendos. Tudo isso somado àquela pressão de diversos agentes do mercado leva a maioria dos pequenos investidores a ir por esse caminho que, infelizmente, tem uma aura de esperteza, pois o “trader” parece ser um sujeito esperto.
 
Coloquei trader entre aspas porque sua verdadeira atividade é algo muito sério, complexo e difícil. Pequenos investidores iludidos, em casa, perdidos e comprando e vendendo 20 vezes por dia porque fulano disse que vai bombar, a ação X é a vedete do fórum ou, simplesmente, porque teve um feeling não é um trader, é apenas um sustentador do sistema. São coisas bem diferentes.

 
Como os tubarões agem?

Como um megainvestidor ou os grandes bancos puderam vender “toneladas” de Petrobras ou Vale em 2007 sem empurrar os preços para baixo? Eles precisaram de toneladas de pequenos investidores comprando para poder vender tudo o que tinham. Para isso, foi necessário “vender” a ilusão da riqueza fácil na bolsa na mídia por meio de adivinhos travestidos de analistas e rapazes que largaram o emprego para viver de bolsa. E como puderam comprar de volta suas PETRO4 e VALE5 em 2008 abaixo do valor real sem empurrar os preços para cima? Precisaram convencer os mesmos para os quais diziam, no topo, que a riqueza na bolsa era fácil de que, agora, ela é um péssimo investimento e que o mundo vai acabar.

Portanto, os pequenos investidores devem sair da bolsa e ir para a renda fixa, como se fizesse alguma diferença estar com dinheiro em renda variável ou fixa no dia em que o mundo acabar. Mas a massa não pensa, e qualquer besteira a convence de fazer o que tiver de mais idiota para ser feito. Claro que o exemplo acima é uma simplificação, mas serve para que todos vejam mais ou menos o que acontece.

Um exemplo real recente é o do Banco do Brasil. Logo após o governo mudar o presidente do banco e determinar que a entidade cobraria juros mais baixos, iniciou-se um pânico de vendas de suas ações pela prosaica razão de que a instituição era uma empresa estatal na qual o governo interferia. E ele era o que quando as pessoas compraram suas ações?

Pois bem, depois de uns dias de queda, a ação subiu quase 70% em linha reta. Os pequenos investidores cumpriram sua função girando para sustentar os custos do mercado, pagando comissões, taxas e impostos e sendo a contraparte vendendo barato aos grandes que estavam querendo comprar. Claro que no topo eles irão finalmente se convencer de que fizeram uma besteira vendendo as ações do Banco do Brasil e vão recomprá-las bem mais caro.

Pois bem, então o que acontece?

A chance de o pequeno investidor que gira vencer o que poupa sem contar os custos do giro já é pequena, pois a tendência é de ele comprar no topo e vender no fundo. Contando com os custos, torna-se quase impossível vencer, pois, além de acertar muito e se beneficiar de seus acertos ao mesmo tempo em que perde pouco nos erros, ele tem de pagar o custo imenso do giro. Para um amador, é quase impossível, já para um profissional é possível, mas ainda assim vivem de taxas e comissões, e não propriamente de bater o mercado, o que não é nada errado ou ilegal. Eles estão fazendo o trabalho deles, mas continuar sustentando o sistema ou querer que a bolsa passe a trabalhar para você é uma decisão sua.

E como o pequeno investidor coloca a bolsa para trabalhar para ele?

• Em primeiro lugar, desistindo de vez dessa ilusão de bater o mercado e que vai conseguir comprar no fundo e vender no topo com tamanha eficiência que supere ser sócio de boas empresas e os custos do giro.

• Voltando a se dedicar ao seu trabalho, ao seu desenvolvimento profissional, para que possa produzir mais capital e poupar mais, pois a bolsa é um excelente instrumento, talvez o melhor, para remunerar capital, mas é péssimo para ganhar e fazer dinheiro ou pagar salário. A bolsa só paga salário para os seus empregados.
Então, parte da poupança do dinheiro que vem do seu trabalho você vai comprar em ações de empresas boas, das top blue chips.

• Abandonando também a ilusão dos “micos” e de descobrir uma bela empresa que ninguém conhece.

• Esquecendo de vez a pseudoesperteza na bolsa. Como bem diz o meu irmão, o Predador, todos os espertos na bolsa terminam no “Cemitério dos Malandros”. Pense em se tornar sócio de grandes empresas e receber os seus dividendos, dividendos estes que você irá reaplicar nelas.

Esse é o grande caminho para o pequeno investidor aproveitar os juros compostos da bolsa. Você vai começar a ver seu capital aumentar no decorrer dos anos e ter sua vida de volta, pois o giro, além de levar o seu dinheiro, leva também embora sua vida e saúde, devido a tantos transtornos e angústias que causa. Claro que não há garantia alguma de que uma empresa boa vai ser assim para o restante da vida. Se o mercado abandoná-la, troque. Você vai perder algum dinheiro nessa troca, mas renda variável é assim, é variável, não é garantida. Há ainda a possibilidade de fazer venda coberta, ou seja, vender opções sobre sua carteira de ações para comprar mais ações. Não é obrigatório nem garantido, mas se bem feito e tendo sempre como objetivo a carteira de ações, e não a venda de opções, pode alavancá-la mais um pouco além dos dividendos. Quem quiser aprender sobre isso pode passar no meu fórum, no Bastter.com.

Em resumo

A riqueza vem de trabalhar, poupar e acumular capital. Quanto mais capital acumula, mais rico você é. A bolsa de valores tem sido, no mundo capitalista, o local em que esse acúmulo vem sendo mais eficiente. Cabe ao pequeno investidor decidir se vai fazê-la trabalhar para ele, comprando ações de boas empresas e recebendo parte dos seus lucros, ou se ele vai sustentar o sistema por meio do giro. Isso é decisão de cada um. A riqueza do pequeno investidor é produzida pelo acúmulo de capital. O giro produz riqueza para os que recebem taxas, comissões e impostos. Cada pequeno investidor decide se ele quer produzir riqueza para ele ou para o sistema. É direito de cada um fazer o que achar melhor, assim como é direito de cada um viver a realidade ou usar todos os artifícios possíveis para se iludir achando que está vencendo um jogo que nem entra em campo, apenas paga o ingresso.

Maurício “Bastter” Hissa é palestrante de educação financeira, mercados e opções, autor dos livros Investindo em opções e Sobreviva na bolsa de valores, além de ter traduzido e adaptado diversos livros sobre mercado e economia. Amante dos esportes, ele pratica ativamente triatlo e corrida de rua. O nome Bastter foi “emprestado” de seu cão Pastor Branco. É autor do site Bastter.com - voltado aos iniciantes no mercado financeiro, com área de aprendizado, fórum de mercado e muito mais.
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