Quem vê Guilherme Affonso Ferreira correndo no parque de manhã ou pedalando durante as férias por países exóticos não consegue imaginar que, segundo estimativas de maio do ano passado, ele controlava R$ 1,2 bilhão em investimentos. O pequeno gigante do mercado de ações procura controlar em torno de 5% das empresas que investe. Tirando esse montante, tem uma maneira particular de investir, extremamente fundamentalista, que cabe em todos os bolsos.
Para os que estão engatinhando no mercado financeiro, Guilherme recomenda investir em empresas em que acredite, não só analisando gráficos e números, mas também observando com o olhar de consumidor. Você foi comprar uma roupa numa loja de departamento, achou que os produtos têm qualidade, o atendimento é bom, então por que não pensar em investir nela?
Na hora de ponderar seus investimentos, Guilherme não tem preferências por setores, mas avisa que a sua rentabilidade está no movimento contrário à maré. Por isso, não é nenhum fissurado pelas cotações diárias no mercado, nem perde muito tempo de olho nos gráficos. Guilherme prefere olhar as empresas, seus produtos e sua trajetória, pois no longo prazo acredita que os preços na Bolsa acompanham o fundamento da companhia. Tirando esses cuidados, não tem muitas ressalvas com ações, só procura ficar longe de empresas que não têm um passado sólido de resultados, mas prometem ganhos futuros, como a OGX.
Com essa visão, quando decide incluir uma nova empresa no seu portfólio, toma uma atitude simples e muito peculiar: monta uma espécie de lista de desejos. Ao contrário do que o nome pode sugerir, nessa lista não tem espaço para sonhos, na verdade são metas com as suas percepções sobre os pontos em que a empresa tem que evoluir para aumentar o seu valor no mercado. Quando todos os requisitos forem atingidos, Guilherme acredita que o preço terá se ajustado e será a hora de partir para outra. Ou seja, quando seus desejos são realizados chegou a hora também de realizar os lucros.
Mas o investidor não deve ficar parado esperando todas as suas metas se realizarem, ele fala em autossuficiência para que os seus desejos sejam, pelo menos, ouvidos pelas empresas. Para ser mais exato, sua voz tem o alcance da quantidade de ações que ele costuma adquirir, que é em torno de 5%.
Pode parecer estranho fixar uma porcentagem quase exata de investimento, mas ele defende que 5% é um número cabalístico. Isso não tem nada a ver com superstição. Guilherme explica que com essa quantidade ele ainda é um acionista minoritário, mas com um montante suficiente para representar alguma importância dentro da composição acionária da empresa.
Quando a roda da fortuna começou a girar
Guilherme Affonso é filho de um bem-sucedido empresário brasileiro. Ingressou na Bolsa para alavancar o capital da Bahema Equipamentos, para possibilitar a compra das concorrentes. Desde então, não parou de engordar seus investimentos.
Uma de suas primeiras grandes tacadas no mercado foi em 1986, quando os movimentos causados pela implantação do Plano Cruzado quebraram bancos e levaram os preços das ações das instituições para o chão. Guilherme, baseado nas suas ponderações fundamentalistas sobre a importância dos bancos na economia, acreditou no Unibanco. A sua aposta não podia ter sido mais acertada! Na época da fusão do Unibanco com o Itaú ele chegou a ter em mãos o equivalente a 1% do novo negócio.
As palavras de um fundamentalista
“O segredo é ter a ousadia de acreditar em coisas que podem demorar mais para acontecer.” (Istoé Dinheiro edição 653)
“Acho que os investidores, em vez de se amedrontarem com o preço das ações diariamente, deveriam pensar a longo prazo e ver essas cotações apenas como uma referência para saber o que aconteceria se saísse naquele dia.” (Revista InvestMais 01/08/09)
"Às vezes, os fundos estrangeiros estão vendendo, mas o setor vai de vento em popa. A lógica macro pode destoar da micro." (Revista Bovespa julho/setembro 2006)