Ser fornecedor de uma grande empresa como a Petrobras significa vendas milionárias e ótimo faturamento. Foi nessa oportunidade de ouro que a Lupatech, fabricante de equipamentos para o setor de petróleo e gás, apostou desde a sua fundação, em 1980. O que não se esperava é que uma crise econômica nos Estados Unidos e na Europa fosse prejudicar os planos de expansão da petrolífera, adiando a construção de novas plataformas.
Pega de surpresa, só restaram dívidas para a Lupatech, que já havia feito os investimentos necessários para suprir a futura demanda da Petrobras. Agora, a empresa vende seus ativos e busca mais empréstimos, na tentativa de quitar os débitos até setembro de 2012. A possibilidade de um calote vem sendo discutida no mercado e penalizou as ações da empresa (LUPA3) com uma desvalorização de 42,2% no mês de novembro. “Tem gente no mercado falando em solvência, mas a gente está esperando para ver o que se pode resolver”, diz o analista de mercado Augusto Horiuti.
E os investidores, como se enquadram neste panorama? Dá para aguardar um feliz ano novo para a empresa?
Baixas perspectivas - Augusto Horiuti conta que o perigo de solvência e a falta de garantias em relação ao futuro da Lupatech realmente assustam os investidores. “Nos anos anteriores havia a expectativa de retomada da Petrobras, mas nesse ano a coisa deteriorou muito e o namoro com o mercado acabou. Quem tem ações está jogando o preço lá para baixo”, afirma. Com uma queda de 73% acumulada desde o início do ano, os papéis da Lupatech são um dos mais castigados da Bovespa.
Horiuti acredita que o futuro do papel é nebuloso. “A perspectiva é bastante negativa, porque a Lupatech depende da Petrobras. Ela começou a investir novamente, mas isso não está se refletindo na Lupatech, ela não está sendo requisitada. Se esse cenário não mudar, ela corre grandes riscos”, alerta. Para o investidor que tem ações da companhia a sugestão é continuar mantendo as posições, no aguardo de uma melhora da empresa, ou vender os papéis e assumir o prejuízo. “O pessoal está comprado há muito tempo, porque precificaram as ações em R$ 20. Ou fica-se com a empresa em baixa por um bom tempo ou é necessário vender com um prejuízo enorme e assumir que errou”, diz.
Segundo o analista gráfico Gustavo Nogueira, as ações apresentaram tendência de baixa durante todo o ano de 2011, e especificamente em novembro perderam um importante suporte gráfico, dos R$ 3,88. “Desde então, chegaram a perder 60% do seu valor em 12 dias, dando uma recuperada de leve, fazendo uma correção, mas em seguida voltaram a cair. A expectativa ainda é de queda”, diz ele.
Futuro promissor? – Se o futuro de curto e médio prazo não parece nada animador para as ações da Lupatech e, consequentemente, para seus investidores, quem preferir ter paciência e mirar no longo prazo precisa levar em conta a falta de sorte pela qual a empresa passou, um problemão chamado “crise econômica mundial”. Isto porque o ramo de atuação da Lupatech envolve investimentos e produtos pesados e, quando tudo dá certo, o retorno é proporcional. Com unidades no Brasil e na Argentina, a empresa produz equipamentos para ancoragem de plataformas de petróleo em alto mar, estações para compressão de gás natural e válvulas industriais, além de oferecer serviços de manutenção e otimização de resultados. A alta especialização da companhia faz com que a sua capacidade de produção seja bem colocada no mercado. “A Lupatech é a empresa que está melhor preparada para suprir as necessidades do setor de petróleo e gás nacional”, aponta Horiuti.
Durante muito tempo, inclusive, a parceria com a Petrobras deu certo. A descoberta dos poços do pré-sal, em 2007, veio sinalizar uma fase ainda melhor. A estatal anunciou investimentos de R$ 224 bilhões entre 2010 e 2014 para a exploração das reservas submarinas e a Lupatech se antecipou a essas encomendas, investindo em estrutura e comprando mais ativos. Parte do dinheiro usado nesses investimentos veio do lançamento de papéis para investidores, como os 200 milhões de dólares em bônus perpétuos (papéis que não têm prazo de vencimento) lançados em 2007, sobre o quais incidiam juros de 9,87% ao ano, a ser pagos trimestralmente.
Foi nessa fase de otimismo que a Lupatech abriu capital e entrou no Novo Mercado. As perspectivas para a empresa eram boas e foram captados R$ 430 milhões na sua Oferta Pública Inicial (IPO, na sigla em inglês), a um preço de R$ 22 por ação. Com dinheiro em caixa, confiança dos investidores e uma grande empresa no portfólio de clientes, um bom futuro era realmente certeiro.
Reflexos da crise – Como tudo no mercado, porém, a crise econômica mundial acabou obrigando algumas empresas brasileiras, entre elas a Petrobras, a rever para baixo seus planos de expansão e diminuir o ritmo de produção. E a Lupatech, que já havia feito investimentos na produção de novos equipamentos para a Petrobras, se viu com o produto na mão e sem o cliente para comprá-lo. “Com a crise a partir de 2008 a Petrobras freou muito os investimentos que ia fazer, e isso deixou a Lupatech nessa situação. Agora ela tem que vender muitos ativos, como a Microinox, que foi vendida por 30 milhões, e está pegando empréstimos, como o de R$ 60 milhões vindos do fundo de pensão da Petrobras”, analisa Horiuti. Nas mãos da Lupatech ficaram as dívidas contraídas durante os planos de expansão e o compromisso de pagar semestralmente os juros sobre seus bônus perpétuos, além do dever de justificar junto aos investidores o baixo desempenho e a falta de perspectivas.
Ou seja, uma das lições a serem aprendidas é que, por mais que o futuro seja promissor, se a empresa praticamente depende de um único cliente, por melhor que este seja, sempre estará correndo riscos proporcionais às grandes expectativas. Resta ao investidor pesar o quanto vale ou não correr estes riscos com ela.
Deterioração traduzida em números
» Em seu último balanço operacional, referente ao terceiro trimestre de 2011, a empresa apurou receita líquida de R$ 166 milhões, 1,9% menos em relação ao trimestre anterior. O lucro bruto caiu 11,6%, contabilizando R$ 47,47 milhões, e o EBTIDA recuou 27,5% na passagem trimestral, acumulando R$ 20,64 milhões.
» Além da queda de produtividade, a companhia acumulava em setembro uma divida de curto prazo, com vencimento nos próximos 12 meses, de R$ 312,8 milhões de reais, 74% maior do que o total em junho, e uma dívida líquida total de R$ 1,22 bilhão. Enquanto isso, a disponibilidade de caixa da Lupatech encerrou setembro em 30,918 milhões de reais – uma queda de 49,1% sobre os 60,715 milhões do trimestre anterior.
» Os dados negativos levaram a agência Moody’s a cortar a nota de crédito da companhia para Caa2, o que indica 29% de probabilidade de calote em um ano. “Com os resultados negativos que a Lupatech vem apresentando, a nota de risco dela lá fora é muito ruim, o que dificulta ou encarece a captação de recursos”, aponta o analista de mercado Augusto Horiuti.
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