Até pouco tempo vista como uma das meninas dos olhos da Bolsa de Valores brasileira, a ação da Hypermarcas não enfrenta seus melhores momentos em 2011. De janeiro a outubro deste ano, o papel ON da empresa, negociado no Novo Mercado, acumulou uma perda de 58,9% – contra a alta de 69,1% registrada entre janeiro de 2009 e dezembro de 2010. A situação piorou com o balanço divulgado em 7 de novembro: no terceiro trimestre de 2011, a Hypermarcas teve um prejuízo de R$ 190,5 milhões, enquanto no mesmo período do ano anterior fora registrado lucro líquido de R$ 78 milhões. O resultado fez a ação despencar 8,6% naquele dia. Entenda a seguir as razões que levaram a Hypermarcas a ter um 2011 complicado.
Razões – A empresa, como seu nome já diz, administra e concentra em seu leque de atividades uma quantidade numerosa de marcas de medicamentos (como, por exemplo, Doril, Benegrip, Engov), beleza e higiene pessoal (Monange, Bozzano, Jontex, Cenoura & Bronze), alimentos (Zero Cal) e higiene e limpeza (Assolan). As operações começaram em 2001, com a compra da indústria dona da marca Assolan, até então pertencente à Unilever, e as ações começaram a ser negociadas na Bolsa em abril de 2008. De lá para cá, a estratégia de compra de novos nomes continuou no foco da Hypermarcas – o que, segundo especialistas, pode ser um dos motivos pelos quais a empresa enfrenta um momento complicado.
Para Estevão Garcia, coordenador do curso de Gestão Financeira da Veris Faculdades, o mercado vem enxergando uma dificuldade da companhia em gerenciar os mais de 190 produtos de seu portfólio. “O prejuízo trimestral vem desde 2007, e houve um corte no Ebtida [lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização]. Fora isso as debêntures no mercado de renda fixa também caíram. Eles vão ter que decidir o que fazer”, assinala. Segundo o professor, os recentes prejuízos estão relacionados à gestão e a um alto endividamento. A Hypermarcas, por outro lado, atribui o desempenho ruim a uma época de transição. Segundo a empresa, a adoção de uma nova política comercial, com foco no longo prazo, levou à queda das vendas no curto prazo, além de perdas financeiras ligadas ao câmbio (veja box).
Os prejuízos de 2011, porém, não significam que o investidor deve sair correndo e se livrar das ações a todo custo. Se houver mudanças, a empresa tem chance de voltar ao patamar de onde saiu. Para Garcia, o próximo ano continuará fraco para a Hypermarcas, que ainda deve levar um ou dois anos até entrar nos eixos. “Tem que se organizar melhor e começar a ver resultados nas marcas que têm. Não adianta ter uma quantidade enorme de produtos, o problema é gestão”, afirma. Já aos que não sabem o que fazer diante das quedas, o professor recomenda cautela, pois o lucro ou prejuízo depende de quando o papel foi comprado. “Ação é de longo prazo, tem que ficar atento. Se a Hypermarcas não fizer gestão, tem que sair fora da ação”, recomenda. Nesse contexto, há ainda quem fique com os olhos brilhantes ao ver o baixo preço do papel (no pregão de 24/11 encerrou valendo R$ 7,78). Apesar de ser um momento delicado, pode ser uma jogada interessante para quem quiser fazer uma aposta.
HYPERMARCAS: Recado aos acionistas
A equipe da WinNews enviou perguntas à área de Relações com Investidores da Hypermarcas para entender como a empresa vê o cenário atual e o que ela tem a dizer a seus acionistas. Confira abaixo as respostas do diretor de RI, Breno Oliveira.
WN: A Hypermarcas divulgou um balanço considerado ruim no início do mês, quando as ações caíram mais de 8% em um só dia. No acumulado do ano, o papel acumula uma queda de pelo menos 58,9%. Segundo os analistas, isso se deve a uma dificuldade em gerenciar todas as marcas da empresa e a um alto nível de endividamento. Qual é a posição da Hypermarcas?
HYPER: No terceiro trimestre, a companhia intensificou a implementação da nova política comercial anunciada no início do ano que contempla redução de prazos e aumento de preços. Além de garantir maior rentabilidade no longo prazo, a estratégia visa também estimular a desestocagem de nossos clientes, equilibrando nossos níveis de sell in (venda aos distribuidores) e sell out (vendas ao consumidor final). Como resultado de curto prazo desta política, tivemos uma queda de vendas orgânicas, que impactou o lucro da empresa. Acreditamos que, apesar da medida trazer perdas no curto prazo, este é o melhor caminho para a Hypermarcas, porque vai proporcionar rentabilidade e geração de caixa para o crescimento sustentável. Já vemos sinais de que este objetivo está sendo cumprido. No acumulado dos nove meses de 2011, a geração de caixa operacional foi de R$ 291,4 milhões, um aumento de 155% com relação ao observado no mesmo período do ano passado. Acreditamos que esse forte fluxo de caixa operacional deve continuar ao longo dos próximos trimestres. Outro fator que impactou o lucro do 3TRI foi o crescimento das despesas financeiras, que está relacionado à variação cambial negativa observada no trimestre. Vale ressaltar que esse é um efeito não caixa, visto que se refere ao principal do Bond (bônus emitido para captar recursos) cujo vencimento ocorre apenas em 2021.
WN: A recomendação dos especialistas é que, para voltar a dar bons resultados no mercado de capitais, a Hypermarcas precisa começar a se organizar melhor e talvez vender algumas marcas, para ver resultados nas que ficarem. Isso está nos planos da empresa?
HYPER: O ano de 2011 foi um ano de transição para a Hypermarcas, em que passamos de uma fase de crescimento via aquisições para crescimento orgânico, na qual a prioridade foi gerar caixa e integrar as companhias adquiridas. Também demos continuidade ao plano de focar no segmento de higiene pessoal e medicamentos, que são mais rentáveis do que alimentos e higiene e limpeza. Neste sentido, vendemos as marcas Assim e MatInset em outubro e anunciamos que temos planos de vender os demais ativos nestes segmentos. O plano da companhia é finalizar as integrações neste ano e, a partir do próximo, crescer com ainda mais qualidade. Para sustentar os planos de crescimento para o próximo ano, a Hypermarcas estima fazer investimentos entre R$ 180 milhões e R$ 200 milhões em 2012 e atingir Ebitda acima de R$ 850 milhões.
WN: Como o acionista da Hypermarcas deve se portar nesse cenário de resultados ruins? Qual recado a empresa dá a seus investidores e quais são as perspectivas para o futuro?
HYPER: O ano de 2011 foi um período de transição necessária para que a companhia pudesse integrar as operações e as forças de vendas das marcas adquiridas nos últimos anos, reforçando sua liderança conquistada nos mercados onde atua. Assim, aproveitamos o ano de 2011 para fazer a integração na unidade Farma, com a união das principais plantas em único sítio em Goiás. Dos R$ 257 milhões de sinergias potenciais, R$ 162 milhões já foram capturados no 3T11, e o restante deve ser capturado até o final do primeiro semestre de 2012. Processo semelhante passa a ser feito agora no segmento industrial das linhas de Consumo, com o Projeto Matrix, que deve gerar sinergias de R$ 230 milhões por ano, a serem capturados entre os anos de 2012 e 2014. Estamos confiantes de estar criando uma empresa muito mais sólida e voltada ao crescimento sustentável, gerando rentabilidade aos nossos acionistas.