O mercado de petróleo passa por um período de elevada instabilidade. De um lado, conflitos políticos, especialmente no Oriente Médio, fazem os preços dispararem em determinados momentos. De outro, a previsão de uma nova recessão na economia mundial leva a projeções de menor consumo com reflexos imediatos nos preços. O resultado é que o WTI (índice do petróleo que é referência nos Estados Unidos, veja box) passou de US$ 110/barril para US$ 80/barril em poucos meses. “Esse movimento de queda foi bastante instável, pontuado por elevações abruptas no caso da divulgação dos escassos dados positivos para a economia mundial”, explica o economista da LCA consultores Marco Laes. E de maneira geral, como é possível entender a dinâmica dos preços dessa commodity tão essencial? E quais os principais reflexos deste vaivém dos preços?
Lei da oferta e da procura – Segundo Marco Laes, o preço do petróleo é definido por um dos princípios mais antigos da economia. “Por ser a principal fonte de energia mundial, e pela situação geopolítica de seus principais produtores, a análise da interação entre oferta e demanda é algo muito importante”, completa. Para Laes, o principal fator que atua sobre a demanda no curto prazo é o componente cíclico: a evolução da economia mundial dita qual será o consumo de petróleo, já que ele é um insumo essencial para a grande maioria das indústrias e meios de transportes. A oferta de curto prazo, portanto, é influenciada pela decisão de produção dos países, pela capacidade ociosa na produção – quanto maior, mais facilmente pode ser a retomada no caso de uma demanda adicional ou interrupção inesperada –, pelos níveis de estoque e por choques exógenos (desastres naturais ou guerras, por exemplo).
Já no longo prazo a principal questão é a dos custos, que dependem das tecnologias de extração existentes e da dificuldade de acessar reservas cada vez mais profundas. Além disso, também há fatores como os preços de bens substitutos (gás natural, biocombustíveis) e fatores ambientais. “Ambas, oferta e demanda, são bastante inelásticas no curto prazo. Ou seja, pequenos movimentos em um dos lados geram fortes movimentos nos preços, que se tornam bastante voláteis”, afirma o economista da LCA.
O cenário atual exemplifica a questão da volatilidade. O mundo passou de uma situação confortável, com elevada capacidade ociosa da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) e altos níveis de estoque da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), para um cenário de incerteza após a eclosão da Primavera Árabe. “A produção da Líbia hoje é de um terço do nível de antes da queda de [o ex-líder líbio Muammar] Kadafi, e a interrupção da oferta de grandes produtores devido às agitações civis pode elevar de forma rápida e substancial os preços”, acrescenta Laes. O economista lembra que, há algumas semanas, a mera perspectiva de um possível ataque de Israel ao Irã elevou os preços em mais de US$ 5 em alguns dias.
Petróleo WTI e Brent: qual a diferença?
O WTI (West Texas Intermediate) é o petróleo comercializado na Bolsa de Nova York, extraído principalmente na região do Golfo do México. Já o Brent é negociado na Bolsa de Londres, tendo como referência tanto o petróleo extraído no Mar do Norte como o do Oriente Médio. Por esse motivo, o Brent é referência de valor para a commodity no mercado europeu e o WTI, no mercado americano. |
Impacto dos preços na economia – Devido à importância do petróleo na cadeia de produção, uma alta nos preços afeta de diversas maneiras a economia: eleva o custo dos transportes, gera ganhos para os exportadores e perdas para os importadores, e causa impactos na inflação. Nas bolsas, uma elevação no valor da commodity que afete negativamente a economia atingirá quase todas as empresas, dado o menor nível de atividade geral. “Com o aumento dos custos e diminuição das margens de lucro, as indústrias que produzem bens intensivos em energia devem sofrer mais. Naturalmente, há um ganho para as empresas produtoras”, explica Laes.
Mas é preciso lembrar que as alterações no preço do petróleo não são capazes de ditar os valores dos papéis do segmento. Segundo Carlos Coradi, da empresa de consultoria EFC – Engenheiros, Financeiros e Construtores, muitos outros fatores contribuem para formação dos preços nas bolsas, como os balanços contábeis e a evolução das reservas e das descobertas. No caso das ações da Petrobras, Coradi explica que os valores têm sido muito afetados pelas descobertas do pré-sal e também (negativamente) pela nova legislação que pretende alterar a divisão dos royalties da extração entre estados e municípios produtores e não produtores, atualmente em discussão no Congresso.
Interferências do governo – Por aqui, o impacto da alta ou queda do petróleo depende de medidas políticas para ser repassado ao consumidor final. A Petrobras não aumentou o preço dos combustíveis nas refinarias, apesar da persistência da elevação do preço cru no mercado internacional. Para o economista da Trevisan Escola de Negócios Alcides Leite, essa medida possui clara influência do governo, que não quer alimentar ainda mais a pressão inflacionária. “Ainda assim, o preço da gasolina no Brasil é um dos mais caros do mundo. Na maioria dos países o preço do combustível é subsidiado pelo governo. Já o Brasil ainda enfrenta o problema da concorrência entre o preço da gasolina e do etanol”, diz.
Para Marcos Laes, apesar das críticas à defasagem entre os preços internos e externos o não repasse da volatilidade é positivo em certos aspectos. “Possibilita que os consumidores tenham um fluxo mais estável de gastos, evita corridas aos postos e ainda auxilia na competitividade entre postos e distribuidoras”, salienta. Atualmente, usar a gasolina derivada do petróleo vale mais a pena para o consumidor do que o álcool vindo da cana-de-açúcar. Esse fato tem prejudicado os investimentos no setor sucroalcooleiro e pode comprometer um dos maiores programas de utilização de combustível renovável do mundo. “O preço do álcool combustível deveria ser reduzido, via desoneração tributária do setor produtivo, e o preço da gasolina poderia ser mantido, desde que não prejudique os resultados da Petrobras”, sugere o professor da Trevisan.
Pré-sal – De acordo com Carlos Coradi, há muita especulação sobre quais serão as consequências da exploração da camada do pré-sal no preço das ações da Petrobras. “O efeito concreto só irá aparecer de fato na medida em que as fases de exploração avançarem e as de produção forem implementadas”. É aí que o Brasil poderá se tornar um explorador líquido, já que hoje ainda é preciso importar uma parte do petróleo consumido. Segundo o especialista, essa etapa levará pelo menos uma década para aparecer em sua plenitude. “Além disso, o gigantesco investimento necessário ainda não está resolvido, pois o Brasil não tem poupança suficiente para bancá-lo sozinho”. Resta a consumidores e investidores acompanhar o desenrolar dos fatos.
Tendências para o ouro negro
Uma análise técnica feita pela ComStop Consultoria Financeira aponta que o preço do barril de petróleo deve retornar à faixa de US$ 30 a US$ 40 antes que a atual tendência de baixa de longo prazo termine. O economista Filipe Botelho, sócio da consultoria, conta que a previsão é baseada na Teoria das Ondas de Elliot, sobre padrões de comportamento dos preços. Nessa teoria, destaca-se o fato de que as tendências dificilmente ocorrem em um único movimento direcional. O comum é que elas ocorram em um zigue-zague intercalando movimentos (ou ondas) favoráveis ou contrários à tendência.
No gráfico do petróleo, é possível observar esse padrão na tendência de alta ocorrida de 1999 a 2008. "Essa tendência foi formada por cinco ondas: sendo três de alta (em azul) e duas de baixa (em vermelho). Uma vez que cinco costuma ser o número máximo de ondas de uma tendência, já era possível imaginar que essa tendência de alta terminaria após o término da quinta onda, e que uma tendência de baixa se iniciaria a partir de então", explica Botelho.
Em 2008, os preços do barril de petróleo despencaram rapidamente de US$ 140 para US$ 40. "No entanto, essa queda ocorreu praticamente em linha reta, o que a configura como apenas uma onda nessa tendência de baixa. E, uma vez que as tendências costumam ser formadas por várias ondas, entendemos que o mais provável é que essa tendência de baixa ainda não tenha terminado", aposta o economista.
Dessa forma, a queda de 2008 teria sido a primeira onda de baixa da tendência. A alta que ocorreu em seguida e trouxe os preços daquele fundo aos patamares atuais teria sido a segunda onda, e estaria faltando ao menos uma terceira onda de baixa nessa tendência para que ela terminasse. "Se de fato isso acontecer, e tivermos uma tendência de três ondas, então poderemos chamá-las no futuro de ondas A, B e C, conforme colocado no gráfico abaixo. Como a onda C costuma ser de tamanho parecido com o da A, projetamos que a onda C levará os preços à faixa de US$ 30 a US$ 40 dólares novamente, conforme mostra o gráfico abaixo", explica Botelho.
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