"O risco advém de você não saber o que está fazendo." Essa frase é atribuída a ninguém mais, ninguém menos do que Warren Buffett, um dos mais famosos investidores do mundo. Curta e simples, ela é um retrato bastante fiel do comportamento de muitos investidores na Bolsa de Valores. Por esse motivo, foi escolhida para resumir a ideia central deste artigo.
Recentemente, em julho de 2011, vimos um movimento eufórico no mercado. A bola da vez foram as ações da Mundial S.A., que, até então, passavam despercebidas aos olhos dos investidores, apesar de estarem entre as mais antigas da Bolsa. E o que aconteceu?
A ação preferencial da companhia (MNDL4) iniciou o ano valendo cerca de R$ 0,30 e, até o final de março, se manteve bem próxima desse nível. A partir de abril, houve um pequeno incremento de volume e a ação começou a se valorizar, valendo R$ 0,73 ao final de maio. Uma alta de quase 150% em poucas semanas.
A partir de junho, o aumento do volume financeiro nas ações começou a ficar bastante notório e as cotações começaram uma incrível caminhada, que culminou com o topo batendo na casa dos R$ 5,24. A essa altura, a valorização era espantosa, cerca de 1.650% no ano.
No mesmo dia em que fez seu topo, a ação iniciou seu derretimento, também assustador, e fechou o pregão com uma redução de incríveis 50% em seu valor do dia anterior. Bastaram apenas três dias para que a ação perdesse cerca de 90% de seu valor em relação ao topo. Hoje, pouco mais de um mês após essa queda, poucos lembram ou comentam sobre a empresa.
E o que podemos tirar dessa história? Que o mercado é ingrato? Que a culpa é dos especuladores? Que os "tubarões" manipularam o ativo? Que a Bolsa de Valores é um cassino? Nada disso, a lição que fica dessa história é a de que "o risco advém de você não saber o que está fazendo". Sim, aquela frase do início do artigo.
Foram quase quatro meses de altas praticamente constantes num claro movimento atípico do mercado, que, apesar de ainda não poder ser provado pela CVM, dava fortes indícios de manipulação do ativo. Mas e daí? Muitos ganharam dinheiro com esse movimento e outros perderam. E quem perdeu? Perdeu quem não sabia o que estava fazendo.
Do dia para a noite a empresa poderia ter se tornado a nova estrela da Bolsa? Poderia ter anunciado melhorias e novas políticas aos acionistas (como de fato o fez)? Poderia ter conseguido algum diferencial competitivo surpreendente? Sim, claro que poderia. Mas os fatos e dados indicavam que isso era pouco provável. A empresa chegou a ser negociada com maior volume financeiro que ações como OGX, Bradesco, Itaú e Petrobras, além de ter apresentado indicadores fundamentalistas que representavam muito bem tamanha euforia do mercado, desproporcionalidade e insensatez em relação ao passado recente da companhia.
Não nos cabe julgar se a empresa foi, era ou é um bom investimento. Nosso dever é apenas alertar os investidores que não sabem o que estão fazendo. Você precisa saber o que está fazendo na Bolsa, caso contrário será expulso antes do que imagina.
Se você é um trader especulador, deve fazer um rigoroso controle de risco e saber exatamente seu ponto de entrada, de stop e de saída da operação. Tudo isso antes de enviar suas ordens. Agora, se você é um investidor de longo prazo, deve saber quais motivos te levam a comprar ações de determinada empresa e segurá-las por meses ou anos. E, se aceita um conselho, evite "dormir comprado" em ativos altamente especulativos.
Mesmo tomando esse tipo de precaução, o futuro é incerto e imprevisível, mas, pelo menos dessa maneira, você estará preparado para cenários adversos e saberá qual decisão tomar em situação de revés.
O que vimos nesse caso recente foi uma baita confusão. Investidores virando traders do dia para a noite e traders virando investidores num piscar de olhos. O resultado? Abaixo, as frases verdadeiras, retiradas de alguns fóruns, ilustram não apenas a resposta dessa pergunta, mas também o enorme prejuízo financeiro e psicológico que alguns investidores sofreram:
"Calma pessoal, vai voltar... estou super nervoso, mas não vamos entrar em pânico."
"Agora vou segurar, não saio mais. Nem que espere mil anos."
Errar faz parte de todo o processo e isso não é vergonha para ninguém. O que importa é aprender com seus erros para não cometê-los mais, por mais absurdos que eles possam parecer.
Costumo dizer que a Bolsa é como um rally ou como fazer uma trilha a bordo de um veículo 4x4. No começo, você não sabe muito bem quando deve acionar ou não a tração, e, por vezes, acaba atolando ou patinando em alguns percursos. Com o passar do tempo e a experiência adquirida, você começa a perceber com antecedência o momento certo de ligar a tração nas quatro rodas.
Portanto, pare de patinar na Bolsa de Valores e engate agora mesmo sua tração 4x4. O segredo? Saber o que está fazendo! Estude bastante e bons negócios.
Sinésio Alves é consultor financeiro e ministra cursos e palestras sobre mercado financeiro. É co-fundador do site www.investpedia.com.br - que trata de assuntos sobre finanças pessoais e investimentos para todo tipo de público, do iniciante ao avançado.
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