Retomando a série de textos “Psicologia de Mercado”, dessa vez, vou abordar o assunto que mais domino: a análise técnica. Antes, vamos relembrar alguns dos principais tópicos anteriores de uma forma bem direta e objetiva:
1- Você é seu pior inimigo no mercado e ele gera muitas emoções, mexe não só com a parte mais frágil do ser humano (o bolso), como também com o ego e outras químicas que podem te dominar e trazer à tona decisões emocionais, em suma, erradas.
2- Você também é seu melhor amigo no mercado. Para isso, é preciso exercitar o auto-conhecimento, saber o quanto a emoção conta em suas decisões e identificar sua zona de conforto e seu perfil. Dessa forma, é possível buscar operações com EV positivo e, acrescentando estratégia e lógica a elas, suas chances de ser vencedor aumentam.
3- Uma das formas mais lucrativas e corretas de atuar na Bolsa é pensar no longo prazo e fazer desse tipo de investimento uma espécie de previdência (maneira mais fácil de isolar a volatilidade). Contudo, a maioria opta pelo chamado trade, a fim de obter ganhos mais rápidos. Essa decisão envolve muito mais emoção do que se possa imaginar. Mas, como comento em meu último texto, não há mal nisso.
OBS: Entenda “trade” como aproveitar a volatilidade para comprar barato e vender caro ou vice e versa. Já investimento deve ser compreendido como algo que serve para isolar a volatilidade e acumular o máximo de ativos possível.
Daqui para frente, vamos nos concentrar em “trade”, já que destrinchei os meus conceitos sobre investimento de longo prazo nos últimos textos. Aqui, revelarei porque escolhi a análise técnica como minha ferramenta de trade.
Comecemos com uma rápida introdução. A análise técnica é mais antiga do que parece. Ela surgiu a 500 anos, na cidade de Sakata (Japão), quando um comerciante resolveu desenhar em um eixo cartesiano a abertura, o fechamento, a máxima e a mínima do arroz (principal commodity da época, que funcionava quase como uma moeda de troca). Foi aí que surgiram os primeiros candles, usados até hoje, e a análise técnica propriamente dita. Com ela, é possível ler o fluxo, seguindo o movimento dos preços, sem que seja necessário entender os porquês.
Uma das coisas que acho mais interessante nessa história é que, lá naquela época, foi chamado de “tri - buda” uma configuração de preços que indicava queda. Esse nome foi dado porque a figura era semelhante à silhueta de um Buda meditando. Séculos depois, Charles H. Dow, dono da agência Dow Jones de notícias, tornou pública e conhecida Análise Técnica conforme os moldes atuais e chamou o já descoberto “tri - buda” de “Ombro Cabeça Ombro”.
Em minha opinião, essa é a maior prova de que gráfico não funciona porque todos vêem ou agem de forma igual e fazem a expectativa virar realidade, mas sim porque existem padrões de movimentos de preços que nos mostram o fluxo de dinheiro, indicando os momentos de acumulações, tendências, distribuições, sinais de reversão etc. Além disso, são muitas as formas de análise. Cada grafista tem seu método: uns preferem usar indicadores, outros contam ondas de Elliot e outros dão mais valor para figuras de impulsão, candles etc.
De qualquer forma, tudo o que está ligado à análise técnica é uma tentativa de fazer uma pesquisa de opinião com o mercado e saber, pelo fluxo, o que a maioria pensa, aumentando, assim, as chances de prever os próximos movimentos do mercado. É claro que existem melhores e piores leitores de gráfico. Quanto mais você acerta, melhor grafista você é. Mas isso não significa, necessariamente, que você irá ganhar mais dinheiro. Essa é a razão de todos os meus textos anteriores até chegar aqui. Certamente, estratégia e disciplina vêm à frente das interpretações de gráfico. Na prática, um ótimo analista sem disciplina tende a ser menos vencedor (mesmo acertando mais o que fala) do que um pior que tem mais disciplina, bom senso e estratégia.
Agora vamos às razões pelas quais eu escolhi a análise técnica como ferramenta de trade. Em “Psicologia de Mercado: Parte 4”, apresentei três premissas para melhorarmos nosso desempenho na Bolsa. Uma delas é: responder ao máximo de perguntas sobre nossas decisões. A minha opção pela análise técnica parte, exatamente, desses questionamentos. Com ela, tenho respostas bastante objetivas, que justificam minhas decisões. Veja:
-> Por que estou comprando ou vendendo? “Estou vendendo porque temos uma figura de queda armada, que aumenta muito as chances do mercado cair” ou “estou comprando porque temos um sinal de fundo/reversão no suporte, aumentando as chances do mercado subir. Se der errado, tenho pouco a perder”.
-> Quanto espero perder se der errado? Como vou me defender se der menos certo do que eu esperava? Aqui é onde a objetividade fala ainda mais alto. No gráfico, é muito fácil (principalmente para quem sabe ler) achar seu stop de perda ao entrar na Bolsa e buscar um stop com EV positivo, que possibilitará ao investidor perder menos se algo sair errado ou ganhar, se der certo.
O stop de perda no trade é essencial! Fazendo uma metáfora: quando você viaja, precisa pagar sua passagem, estadia, comida etc. Não tem como fugir dessas despesas. E se a viagem for horrível? Se você ficar doente ou o clima estiver ruim? Alguém devolve o dinheiro a você? Claro que não! Encarem o stop assim. É o preço que você paga para operar e tentar ganhar mais. Se der certo, valeu a pena. Se der errado, “a viagem foi ruim”. Por isso que uma operação deve sempre ter +EV, menos para perder no stop do que para ganhar se der certo.
E se o papel vai a seu favor, mas, mesmo assim, não alcançou seu objetivo? Você sempre vai tentar melhorar seu risco/retorno. Quando surgir a chance, você deverá aumentar o seu stop e sair da operação “perder pouco para ganhar mais” para “perder nada e ganhar mais”, ou, quem sabe, “ganhar pouco ou ganhar mais”.
-> Qual motivo me leva a crer que a chance do mercado obedecer a minha expectativa é maior do que o que eu tenho a perder se minha expectativa falhar? Como vimos, são anos e anos de análise técnica, tudo na busca de aumentar a chance de acertar o movimento de mercado. Então, se você for disciplinado e sempre tiver um motivo ou padrão claro para entrar: “figuras de impulsão”, “sinais de topo/fundo/reversão”, sua chance de acerto será maior. A junção disso com o controle de stop, sempre menor que o possível objetivo, deixará você em uma situação +EV e, mesmo que perca algumas vezes, seguindo essa premissa, você será um vencedor no longo prazo!
Antes de dar sequência ao assunto, deixando os textos mais técnicos, para não perder o costume, finalizarei com uma pergunta: “lucro bom é lucro no bolso?”. E, para adiantar, no próximo texto, trago uma famosa frase de mercado como título: “Deixe os lucros correrem, corte as perdas rápido”. Até o próximo!