Filho de um grego e de uma turca, o carioca Senor Abravanel, mais conhecido como Silvio Santos, sabe como ganhar dinheiro. À frente dos próprios negócios desde a década de 1950, o dono do SBT (Sistema Brasileiro de Televisão) sempre apostou na intuição para encontrar nichos de mercado e levar ao consumidor o que ele gostaria de ter, de títulos de capitalização a consórcios e loteria, passando por programas de televisão que há décadas cativam os brasileiros. Com esse talento, estabeleceu um dos maiores grupos empresariais do País, não só construindo um patrimônio avaliado em R$ 9,4 bilhões – Senor Abravanel é o maior pagador de Imposto de Renda do Brasil – como também enriquecendo seus fregueses.
A despeito de ser um expert em comunicação de massa, Silvio Santos expandiu seus empreendimentos para outras áreas, entre elas o mundo financeiro, com a criação do Banco Panamericano. A administração da instituição foi delegada a pessoas de confiança do empresário, mas a decisão se mostrou um erro: em 2010 foi descoberto um rombo de R$ 4,3 bilhões no banco, fruto de fraudes ligadas a irregularidades no registro de carteiras de crédito. Após o estouro do escândalo, o valor de mercado da instituição caiu pela metade e ela acabou sendo vendida por R$ 450 milhões. A fraude do Panamericano ainda provocou um efeito-dominó dentro do grupo, levando, pouco depois, à venda das tradicionais Lojas do Baú, que Silvio Santos conduzia há mais de 50 anos. A imagem de credibilidade atrelada ao empresário foi abalada, mas sua luta a fim de saldar o rombo deixado pelo Panamericano foi vista com bons olhos pela população. Uma prova de que mais do que um homem da mídia carismático, Silvio Santos é um empreendedor de sucesso.
O sucesso veio na barca – Primeiro dos seis filhos do casal de imigrantes judeus Alberto e Rebecca Abravanel, o jovem Senor sabia o que era viver com um orçamento apertado e estava decidido a mudar essa condição. Após observar por um tempo, no centro do Rio de Janeiro, um ambulante que vendia capas de plástico para títulos de eleitor, Silvio seguiu o homem para conhecer o seu fornecedor. Com os dois cruzeiros que tinha no bolso, o adolescente de 14 anos comprou uma das capinhas e voltou à rua, bradando que era a última. Conseguiu vendê-la rapidamente e, com o dinheiro do negócio, comprou mais duas capas, que também foram vendidas rapidamente.
Sabendo do seu talento genuíno para as vendas, Silvio passou a investir nas canetas-tinteiro, produto que ele considerava mais sofisticado. O animador de plateias que parecia já existir no camelô cativou o público e tornou Silvio famoso na cidade. O talento do jovem era tão evidente que, ao ser enquadrado por um policial que fiscalizava o comércio ilegal na região, o guarda decidiu apresentá-lo a um amigo que trabalhava na Rádio Guanabara. O garoto participou de um concurso para locutor, derrotando nomes posteriormente famosos, como o comediante Chico Anísio, e começou a apresentar programas de calouros. Paralelamente a isso, continuou vendendo suas canetas, e ainda serviu às Forças Armadas quando completou 18 anos.
Uma noite, voltando de Niterói para o Rio de Janeiro, ele notou que a viagem na barca era muito maçante e pensou que uma música tornaria a travessia mais agradável. Fez um acordo com a loja que forneceu a aparelhagem: em troca da cessão do equipamento, ele faria propaganda do estabelecimento nos intervalos das músicas. O negócio deu certo e cresceu. Depois da música veio a ideia de vender refrescos para os passageiros, e aos fornecedores de equipamento eletrônico se juntaram os fornecedores de bebida. Em pouco tempo, Silvio, além de trabalhar na rádio, administrava um pequeno negócio de comércio e publicidade – a função de camelô ficou para trás, embora fosse bastante rentável, garantindo mais de cinco salários mínimos diários da época. Não demorou até que um dos seus fornecedores o incentivasse a ir para São Paulo, onde mais oportunidades poderiam ser abertas pelo engenhoso Silvio.
Baú e televisão – Em São Paulo, ele conheceu Manuel de Nóbrega, que era sócio de um alemão em um negócio meio suspeito chamado Baú da Felicidade. Nóbrega, temendo perder dinheiro com a irresponsabilidade do sócio, pediu a Silvio que o ajudasse a recuperar o negócio. O carioca, que na época apresentava shows de calouro e sorteios, conseguiu colocar o empreendimento de pé pouco antes da primeira data de entrega dos “prêmios”, baús de brinquedo para presentear crianças no Natal. O apresentador assumiu o negócio, ampliou a gama de produtos, investiu na venda de carnês de porta em porta e passou ele mesmo a fazer propaganda do Baú na televisão, alugando horários em emissoras como a TV Paulista, depois comprada pela Globo.
Na década de 1970, Silvio recebeu do governo militar o seu primeiro canal, no Rio de Janeiro. O Programa Silvio Santos ainda era transmitido pela Record, em São Paulo – cidade que, poucos anos depois, passou a ter seu próprio sinal da TVS, a emissora que se tornaria o SBT. Em paralelo à expansão midiática, ele foi investindo capital em outros negócios. Além do Baú da Felicidade, que passou a contar com mais de uma centena de lojas e sortear casas, foram criados o Banco Panamericano, a Liderança Capitalizações, que administra a TeleSena, o Teatro Imprensa, uma corretora de seguros, uma concessionária de veículos, a indústria de cosméticos Jequiti e o Hotel Jequitimar, no litoral paulista. Silvio Santos foi dono ainda de estúdios de dublagem, da Hydrogen, adquirida pela Hypermarcas, e da Rádio e Televisão Record. Empreendimentos em cujas lideranças ele costumava colocar familiares.
Erros e acertos – Confiar a administração dos negócios a pessoas que não sabem conduzi-los, mas que são da família é um erro cometido por muitos, e também por Silvio Santos. Ele abriga dezenas de parentes nas suas empresas, de esposa e filhas até primos. Um deles, Rafael Palladino (primo da mulher de Silvio, Íris Abravanel), estava à frente do Panamericano. Sob seu comando, desde 2006 o banco vinha registrando como se fizessem parte do seu patrimônio carteiras de crédito que já haviam sido vendidas para outras instituições financeiras. Por anos, nenhuma auditoria interna foi capaz de detectar a fraude, que só foi percebida pelo Banco Central em 2010. Percebido o rombo, Silvio firmou um acordo com o Fundo Garantidor de Crédito para receber o dinheiro necessário para que o banco não quebrasse de vez, e colocou como garantia do empréstimo algumas de suas empresas, entre elas o SBT. O empréstimo deve ser pago em 10 anos e pode levar ainda mais empresas do grupo, além das Lojas do Baú.
Depois do episódio, o empresário fez uma faxina no grupo, avaliando quais eram os altos funcionários que estavam empregados por mérito e quais estavam ali por serem da família. Uma estratégia que parece mais de acordo com o estilo Silvio Santos: desde o começo, ele buscava em firmas e repartições pessoas trabalhadoras e bem dispostas. Se fosse a um escritório e conhecesse um funcionário dedicado dava o recado: havia um lugar para alguém como ele na sua empresa. Muitos dos grandes diretores do grupo começaram dessa forma. Outra estratégia responsável pela ascensão dos negócios foi o fato de que todo o lucro do grupo era reinvestido: Silvio apenas se pagava um salário compatível com sua função. É o que afirma até hoje.
Na comemoração dos 30 anos do SBT, de camisa florida e bermuda (bem diferente do habitual terno domingueiro de décadas), ele deu uma palestra aos funcionários e disse que ganha um ordenado fixo do SBT. Na mesma ocasião, lembrou que nunca houve espaço para sossego ou coisas caídas do céu na sua trajetória, e que é assim com todos que procuram o sucesso. “Só não consegue o seu objetivo quem acredita que as coisas são fáceis. Todas as coisas são difíceis, todas as coisas têm que ser lutadas”, declarou. E ainda orientou quem pensa em abrir um negócio próprio: “Se você não sonhar alto, se você administrar bem a sua empresa, com os pés no chão, não se preocupando nem com o primeiro colocado, nem com o segundo, nem com o último colocado, se você fizer aquilo que a sua intuição manda, e usar o bom senso, deixando de lado a vaidade, você tem todas as possibilidades de conseguir o seu objetivo”. Esse pode ter sido um dos segredos de Silvio, mas como ele mesmo sempre disse, justificando seu nome artístico, os santos – além da sorte e do talento – sempre o ajudaram bastante.
PERFIL: GRUPO SILVIO SANTOS
Ano de fundação: 1958;
Sede: São Paulo, SP;
Fundadores: Manoel da Nóbrega e Silvio Santos;
Faturamento: US$ 4,5 bilhões anuais.