A Usiminas, companhia que detém 40% do mercado nacional de aço, divulgou seus resultados em relação a 2010 e ao quarto trimestre do ano (4T10), este último abaixo das expectativas do mercado. O lucro da empresa nos 12 meses, de R$ 1,6 bilhão, cresceu 24% na comparação com 2009. Em contrapartida, se comparado o 4T10 com igual período de 2009, a queda foi de 38%, para R$ 413 milhões.
“O resultado veio ruim, até porque não podemos esquecer que estávamos em um ano de recuperação pós-crise e os números poderiam ser melhores. Este é o cenário atual do setor de Siderurgia, os preços não subiram para fazer frente aos produtos importados e houve uma queda de volume no último semestre do ano. A desvalorização do dólar frente ao real e a China como novo player exportador de aço foram fatores que dificultaram mais ainda o panorama”, diz o economista e analista de mercado, José Goés.
Nos três últimos meses de 2010, a queda dos preços médios de seus produtos, as vendas estáveis e a elevação dos custos de produção foram fatores apontados por especialistas como principais responsáveis pela queda de 60% no Ebtida (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações), e pelo recuo de 27,6% para 10,8% na margem Ebtida, ambos em comparação ao mesmo período de 2009.
No ano passado inteiro, o maior volume de vendas colaborou para a alta de 54% no Ebtida, para R$ 2,6 bilhões, em relação ao exercício anterior, além de influenciar diretamente no acréscimo de 19% da receita líquida na mesma base de comparação, atingindo a marca de R$ 12,9 bilhões.
“As perspectivas são um pouco conturbadas para o setor. Conforme as siderúrgicas forem se adaptando à nova realidade do câmbio e da concorrência com produtos importados, podem se tornar um investimento interessante no longo prazo. Para a Usiminas não é diferente; apesar do mercado não vislumbrar boas perspectivas, a companhia tenta correr atrás do prejuízo, vem fazendo um grande esforço para diminuir custos e investir na parte de mineração para produção de sua matéria-prima, por exemplo ”, constata o economista.
Preço do aço será reajustado - As siderúrgicas nacionais devem anunciar um reajuste no preço do aço, medida que vem para compensar os descontos dados no ano passado para superar a concorrência das importações. A Usiminas já está negociando reajustes de 5% a 10%, que deve valer a partir de 15 de março.
“O aumento melhora um pouco a margem, mas com o dólar caindo novamente, não há muito espaço para expansão, já que o preço do aço é balizado praticamente pelo mercado externo. A Usiminas precisa aumentar sua eficiência, diminuir custos com energia, aumentar a produção de minério de uma forma mais verticalizada. Entretanto, a realidade do setor é outra e não vive um bom momento”, analisa Góes.
Apesar dos especialistas não vislumbrarem boas perspectivas no curto prazo, já está sendo percebida uma evolução das empresas do setor em relação à concorrência com o aço internacional. Em seu boletim mensal, o Instituto Aço Brasil (IABr) deflagrou uma queda de 33,7% na importação de aços longos entre os meses de janeiro deste ano e de 2010. Se pegarmos dezembro do ano passado, a queda foi ainda maior, de 46% em relação ao primeiro mês de 2011.
Outro dado positivo foi constatado com o aumento nas vendas de aços planos no mercado nacional, de 2,4% entre janeiro deste ano e igual período de 2010. Neste ano, a Usiminas acredita que haverá uma redução entre 40% e 50% nas importações de aço do País.
CSN quer fazer parte do bloco controlador - Recentemente, a CSN vinha fazendo várias aquisições de papéis da Usiminas, chegando a adquirir 5% das ações ordinárias e preferenciais da concorrente, o que denunciou a intenção da empresa de fazer parte do bloco controlador da Usiminas, do qual fazem parte Votorantim, Camargo Côrrea e o grupo Nippon.
Com um novo acordo, os acionistas fecharam qualquer brecha para a entrada da CSN no controle da companhia. Porém, Góes acredita que isso seria benéfico para a empresa. “Devido à grande concorrência do setor, uma consolidação seria bem vista, pois a CSN possui uma forte parte de mineração, o que seria bom para o papel. A companhia ganharia escala para competir com os produtos importados. No cenário atual, com o dólar caindo e o minério subindo, essa consolidação seria uma boa alternativa”.
Cortando custos - Nesta semana, a Usiminas adquiriu US$ 1,03 bilhão com a venda de recibos de ações que sua subsidiária na Europa possuía da Ternium (parte siderúrgica da Techint na América Latina). A companhia brasileira detinha participação de 14,2% no capital da siderúrgica.
A Usiminas adquiriu ações da empresa em 2005, mas já no ano passado demonstrava sua vontade em vendê-las, alegando que não fazia parte de seu negócio principal. “A companhia (Usiminas) precisa focar em seu negócio nesse momento difícil para o setor, cortar o máximo possível de custos e vender ativos ineficientes. Acho difícil voltar aos resultados de pré-crise, em 2007 e 2008, mas pelo menos está se adequando à nova realidade”, finaliza o economista. Trata-se de uma ação que, por enquanto, deve ser acompanhada de longe.