Se alguma pesquisa fosse realizada para eleger a favorita dos investidores na Bolsa, entre as líderes estaria, sem dúvida, a mineradora Vale – segunda maior empresa privada da América Latina, cujas ações são negociadas no Brasil sob os códigos VALE3 (ON) e VALE5 (PNA). E, acredite, esse não é um prognóstico baseado em alegorias fantasmagóricas. Para começar, não são muitas as empresas que proporcionam aos investidores ganhos de 273,84% em apenas 5 anos (de 14/05/2004 a 14/05/2009). Muito menos as que conseguem manter um caixa de R$ 2,3 bilhões (1º tri de 2009) em meio a um turbilhão financeiro global.
Criada em 1942 pelo governo federal, passou a integrar a Bovespa em abril de 1968. Em 2002, foi concluído o processo de privatização, quando trabalhadores puderam investir os recursos do FGTS em ações da empresa. Hoje, a Vale conquistou o mundo, no sentido mais fiel da expressão. Está presente nos cinco continentes, tem um pool de 26 empresas e figura entre as 100 mais competitivas do planeta, no ranking da Boston Consulting Group.
No Ibovespa, são negociadas diariamente cerca de 5,2 bilhões de ações e seu peso supera os 15%. Suas ações também constam nas Bolsas de Nova York (NYSE), Madri (Latibex) e Paris (Euronext Paris). Em 2008, a mineradora bateu recorde de remuneração aos acionistas: R$ 5,58 bilhões. Além disso, as principais agências de ratings a classificam como segura para investir.
“A Vale tem sido e ainda é a melhor ação da Bolsa. Não pela popularidade, mas sim pela competência da empresa”, diz Eduardo Leitão, consultor financeiro especializado em investimentos. “Sou um histórico investidor da Vale; é uma companhia com muita estabilidade”, admite Tharcísio Souza Santos, professor e diretor do FAAP MBA. “A dúvida é se o preço (do minério de ferro) vai ficar bem aquecido. Você não questiona se vai vender ou não (minérios), porque mercado existe”, reitera Tharcísio.
Essa é a preocupação geral de analistas e investidores. Isso porque a receita da Vale estaria comprometida caso os preços sofressem queda significativa. Na primeira semana de maio, durante coletiva de imprensa, a questão foi insistentemente levantada. “Adotamos uma postura comercial mais flexível, e estamos prontos para explorar todas as alternativas que surgem, analisando caso a caso”, revelou Fábio Barbosa, diretor executivo da empresa. A resposta não agradou e, tampouco, esclareceu valores, mas deixou claro que, independente de preços, a mineradora está interessada em manter os acordos comerciais pensando não só no momento atual como também no futuro.
Na última sexta-feira (22/05), foi noticiado que a secretária-geral da Associação Chinesa de Aço e Ferro deve exigir da companhia um desconto de 40% no preço do minério usado para a fabricação de aço. O mercado já esperava por algo em torno disso. Na véspera, a Vale informou que reduziu a previsão de seus investimentos, de US$ 14,325 bilhões para US$ 9,035 bilhões (-36%). Desse montante, serão direcionados 77% para o crescimento orgânico da empresa; sendo 65,6% aos projetos e 11,4% à pesquisa e desenvolvimento (P&D). No ano passado, a mineradora alocou US$ 10,2 bilhões, excluindo aquisições, o que representou aumento de 34,2% sobre o total investido em 2007.
Estratégias – Além de priorizar o crescimento orgânico, deixando de lado aquisições, a principal tática que a Vale adotou para enfrentar a recessão global foi concentrar seus esforços no território asiático. A China, em especial, respondeu por 44,7% das vendas no primeiro trimestre, ou seja, quase a metade. No Japão, por exemplo, a demanda enfraqueceu consideravelmente (-34,4% no período).
Se, por um lado, a saída foi boa para driblar o arrefecimento nos continentes americano e europeu, por outro, “a concentração de mercado pode se tornar arriscada caso perdure”, avalia José Góes, analista e economista da WinTrade. “Compensamos parcialmente as perdas dos EUA e do Canadá. Com o passar da crise, essa geografia deve ser diluída. Além disso, nós não acreditamos que a demanda na China irá cair e a oferta é, relativamente, limitada”, argumenta o diretor executivo da Vale, Fábio Barbosa.
“A mineradora optou também por adequar a produção à demanda, e por isso reduziu o ritmo. Ela tem essa condição de elasticidade. E os executivos foram rápidos” avalia Themis Larangeira, analista da Lopes Filho. Segundo o último relatório divulgado pela companhia, no primeiro trimestre do ano a produção do minério de ferro caiu 37,1% na comparação com igual período de 2008 e 25,9% frente ao trimestre anterior, somando 46,8 milhões de toneladas.
Expectativas - Esses últimos dados reforçam a teoria de que resultados favoráveis no passado não servem de garantia para o futuro. Mas existem alguns itens, como características do setor em que a empresa está inserida e nível de gestão e de assertividade dos dirigentes da companhia que possibilitam ao mercado ainda ter boas expectativas. "A Vale tem tudo a ver com o crescimento de países emergentes, porque trabalha diretamente com matéria prima. Depois da crise, ela vai se beneficiar do programa chinês de crescimento e deve ter um desempenho muito bom", opina o professor Tharcísio.
Esse raciocínio é bem ilustrado no relatório de desempenho da Vale sobre o primeiro trimestre de 2009. Segundo o documento, "os indicadores de atividade econômica da China contemporâneos e antecedentes estão emitindo sinais mais favoráveis". A companhia estima que "o país asiático tenha apresentado crescimento anualizado de 5%". E destaca os seguintes pontos positivos, que justificam suas apostas: "o PMI chinês avançou 50 pontos em março - a quarta alta seguida, as vendas de carros aumentaram 10,3% na comparação com igual período de 2008, a produção industrial está se recuperando e o crescimento dos investimentos em ativos fixos acelerou para 28,6% no final do trimestre." A mineradora, no entanto, não arrisca traçar metas e estimativas de ganhos / vendas para 2009.
Sobre o setor, Alexandre Assaf Neto, professor de Finanças da Fipecafi (Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras) e diretor do Instituto Assaf, avalia que existe um risco abaixo da média do mercado. “Isso porque ele é previsível, não agrega tecnologia e a entrada de concorrentes no mercado não acontece do dia para a noite, pois se trata de um negócio grande, que exige tempo para maturar". Ele ainda comenta que o segmento cresceu muito com os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) e a avassaladora pujança econômica mundial, mas, em sua opinião, o fato não deve se repetir, pelo menos não na mesma intensidade. O professor ressalta também o grande volume de reservas brasileiras que colocam o País à frente de outras nações. "Nem a China, com a imensa dimensão territorial e população, possui os recursos naturais que o Brasil detém", completa.
Themis Larangeira, analista da Lopes Filho, considera a mineradora uma empresa sólida, "com caixa robusto e suficiente para fazer frente aos investimentos". Para ela, isso não deve mudar no longo prazo, beneficiando investidores que olham para um horizonte mais amplo. O mesmo diz José Góes, que ainda acrescenta: "a Vale mostrou na crise que é bem ágil, ela se ajustou rápido ao mercado e a demanda por commodities nunca vai acabar, isso é muito vantajoso. Para quem acredita na recuperação da economia, a Vale é uma ótima opção."