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02/05/2008
Especial Grau de Investimento
Investment Grade
Após o feriado de 1º de maio, o Brasil retoma as operações em Bolsa em um novo patamar. Agora, é dono de um “Grau de investimento”, posição obtida por classificação da agência Standard & Poor’s e que promete conseqüências bastante positivas. A Win preparou um especial sobre o tema para você entender rapidamente tudo que está sendo discutido e ficar mais preparado para tomar decisões financeiras.
Veja mais nesta matéria
» Como funcionam as notas do S&P
» Razões para o País ser considerado investimento seguro
» Os impactos que o Brasil deve sentir
» Disparada na Bolsa
» Perspectivas: O que mais esperar?
Entenda o que é o Grau de Investimento
Não é de hoje que se esperava que o Brasil obtivesse uma classificação de “Investment Grade”, ou Grau de Investimento em português. Os especialistas já achavam, inclusive, que ela deveria ter vindo há mais tempo, e ficaram surpresos com a época em que veio, não com a classificação em si.

O Grau de Investimento é uma espécie de “selo de qualidade”, um tipo de “ISO” que é dado pelas agências de classificação de risco para a economia do País. São três as principais agências: Moody’s, Service, Fitch Ratings e Standard & Poor’s. Esta última concedeu, no dia 30 de abril, o Grau de Investimento ao Brasil.

Para entender melhor como funciona é válido saber que a Standard & Poor’s trabalha com uma escala de 22 níveis. O último deles é o “D”, e significa que o país avaliado certamente vai dar um calote nos pagamentos. O primeiro nível é o AAA, e significa que o país que o possui tem total capacidade de honrar seus compromissos. Neste nível estão os Estados Unidos e a Alemanha. O Líbano, por sua vez, ocupa hoje a menor posição na escala da agência: CCC+, o que significa que o país é altamente vulnerável.

Agora que o Brasil recebeu o Grau de Investimento, ele se encontra na posição BBB-, junto com Índia e Cazaquistão. Ela significa que o país possui um parâmetro de proteção adequado, ou seja, que é um país seguro para os investidores colocarem seu dinheiro, tendo condições de honrar as dívidas. Antes, nesta mesma escala, o Brasil ocupava a posição BB+, junto com Colômbia e Peru, significando que ocupava uma posição “menos vulnerável à inadimplência”. O nível BBB-, no qual o Brasil agora se enquadra, é o primeiro dos dez que compõem os degraus do Grau de Investimento. Ou seja, segundo analistas do mercado, ainda há muito chão pela frente. O México e o Chile, por exemplo, países emergentes como o Brasil, têm nota BBB+ e A+, respectivamente.

Na escala das outras duas agências, Moody’s e Fitch Ratings, o Brasil ainda não alcançou o Grau de Investimento, ocupando as posições Ba1 e BB+, respectivamente. Em ambas, falta apenas um degrau para o País conquistar o tal “selo de qualidade”, algo que o mercado acredita que ocorrerá em breve.

Apesar de o Grau de Investimento ter vindo em um momento em que as agências de classificação estão sendo bastante contestadas em razão das falhas na previsão da crise imobiliária nos Estados Unidos, muitos especialistas acreditam que o problema está apenas na avaliação de papéis do sistema bancário e não na avaliação do risco soberano de um país, para o que a classificação continua valendo e muito.

Como funcionam as notas do S&P:

Razões para o País ser considerado investimento seguro
Ao conquistar o Grau de Investimento, o Brasil ocupa a mesma posição de Índia e Cazaquistão na escala de segurança no pagamento das dívidas. Acima dele, ou seja, em posições ainda mais privilegiadas, estão países como Rússia, México e Polônia. Quais motivos levam um país a subir ou descer degraus em uma escala de classificação?

Segundo Lisa Schineller, analista da agência Standard & Poor's que melhorou a nota do País, "o aumento leva em conta a maturidade das instituições e do quadro político do Brasil, evidenciado pela redução do déficit orçamentário e da dívida externa, assim como as melhores perspectivas de crescimento", explicou. A analista lembrou que a dívida externa líquida do país caiu significativamente. "Mesmo que os riscos existam, o aumento da dívida externa será modesto", acrescentou.

No caso do Brasil, o que impedia à chegada ao Grau de Investimento eram problemas que ainda hoje existem, como os altos gastos do governo e o grande endividamento público. Entretanto, houve melhora no perfil das dívidas, crescimento do PIB, e o Banco Central vem atuando fortemente para conter a inflação. Ainda no mês de abril, a instituição optou por aumentar a taxa básica de juros em 0,5 ponto percentual, para 11,75% com este objetivo; e isto parece ter auxiliado na decisão da agência.

Para os agentes de mercado, o Brasil merecia alcançar este nível há algum tempo, já que os fundamentos da economia brasileira estão bem sólidos.

O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Armando Monteiro Neto, afirmou que a notícia corresponde à percepção de que a economia brasileira mudou estruturalmente ao longo dos anos, que o Brasil pôde reduzir sua vulnerabilidade externa, melhorou o perfil da dívida pública e voltou a crescer a taxas mais elevadas.

A Federação e o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp/Ciesp) também avaliaram positivamente a notícia, “diante do reconhecimento pela comunidade financeira internacional de que a economia brasileira apresenta baixo nível de risco”.

Para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a classificação de Grau de Investimento já deveria ter sido dada há muito tempo ao País. “Acho que o Brasil é seguro independentemente das agências de risco”, disse ele, no mesmo dia do anúncio, após participar de um seminário da Comissão Latino-Americana, em Brasília.

Os impactos que o Brasil deve sentir
A mudança na classificação brasileira pela Standard & Poor’s, de “Menos vulnerável à inadimplência” para “Parâmetro de proteção adequado” deve trazer algumas conseqüências imediatas para o país. Uma delas, incontestável, é o aumento de investimento estrangeiro. O professor de governança corporativa da Trevisan Escola de Negócios, Roberto Gonzalez, explica: “A agência Standard & Poor’s tem alta credibilidade e é reconhecida pelo mercado no que se refere a investment grade. É lógico que ainda faltam outras agências seguirem esta trajetória, mas este fato isolado já pode contribuir para ampliar a entrada de recursos financeiros no país, já que muitos investidores internacionais preferem investir em países seguros. O selo de grau de investimento garante isso”.

A maior entrada de investimento estrangeiro no país, por sua vez, acaba causando algumas preocupações relacionadas à queda do dólar. Entrando maior volume da moeda norte-americana por aqui, a tendência deve ser uma valorização ainda maior do real perante o dólar. O temor é que possa ficar negativo o saldo da balança comercial brasileira para o próximo ano, já que, com um real mais valorizado, cresce a dificuldade de competir no mercado externo.

Para o presidente da Confederação Nacional da Indústria, Armando Monteiro, além da questão da valorização cambial, o reconhecimento da comunidade internacional leva o país à outra questão: “um país com a classificação de investment grade precisa ter taxas de juros reais tão mais elevadas do que as taxas internacionais? Isto é, a percepção de risco interna no Brasil agora passa a ser maior do que a percepção de risco externo”.

Resumindo: o Grau de Investimento deve trazer maior entrada de investimento estrangeiro, provável desvalorização do dólar perante o real – o que preocupa os exportadores - e necessidade de se repensar a taxa de juros, que não precisará ser tão alta em um cenário favorável. A Bolsa, acreditam os especialistas, ganhou de presente uma alta histórica de 6,33% na data do anúncio, mas deve registrar algumas flutuações, normais e esperadas, no curto prazo.

Disparada na Bolsa
Foi a maior alta desde 17 de outubro de 2002: 6,33%. O anúncio de Grau de Investimento para o Brasil causou uma movimentação intensa na Bolsa de Valores de São Paulo, a Bovespa, que encerrou a sessão em 67.868 pontos, com volume de R$ 9,7 bilhões, enquanto a média diária registrada no ano é de R$ 5,9 bilhões.

A razão para tanta euforia é a perspectiva positiva que a reclassificação da agência Standard & Poor’s traz para o Brasil, com a expectativa de que aumente o fluxo de capital estrangeiro no País.

Como a Bovespa está em seu 6º ano de valorização, muitos especialistas do mercado não acreditavam que 2008 seria um ano de grandes valorizações. Ainda falta muito para o ano acabar, é verdade, mas a julgar pelo que vem acontecendo, é bastante positivo o panorama para quem investe em ações.

No ano, até abril, a Bovespa registra valorização acumulada em mais de 6%, percentual muito maior do que qualquer outra aplicação por aqui (a Renda Fixa, por exemplo, registra valorização de cerca de 3,5%; os Fundos DI, 3,3%; e a Poupança, 2,5%). A expectativa para o curto prazo é de momentos de oscilação, que devem ser observados com cautela, mas que não merecem susto.

Analistas mantêm a projeção de que a bolsa atinja os 80 mil pontos até o fim de 2008, patamar que pode até ser ultrapassado caso as outras agências de riscos (Moody’s e Fitch) dêem um upgrade ao Brasil. “Devemos rever esse número para cima”, disse o presidente do HSBC Investments, Pedro Bastos, em entrevista para o jornal Folha de S. Paulo.

Perspectivas: O que mais esperar?
O Grau de Investimento deve causar conseqüências positivas para o País, como maior reconhecimento da economia lá fora e conseqüente entrada de investimento estrangeiro por aqui. Além disso, espera-se uma valorização cambial, queda nas taxas de juros e prováveis flutuações na Bolsa para o curto prazo. “Agora eu compreendo o quanto essa classificação é importante para as relações comerciais do Brasil, porque agora nós temos o aval do mercado mundial para atrair cada vez mais investidores", disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante discurso no 7º Fórum dos Governadores do Nordeste, realizado em Maceió, em conjunto com a 1ª Reunião do Conselho Deliberativo da Sudene.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o economista-chefe do ABN Amro para América Latina, Alexandre Schwartsman, avalia que o grau de investimento pode gerar incentivos para a continuidade do pragmatismo na política econômica. Segundo ele, a S&P ressaltou que um fator importante na melhora da nota brasileira foi que essa política se revelou capaz de dar estabilidade ao País e colocá-lo na rota do crescimento sustentável. “Se está gerando resultados, deve ser mantida”. Em relação aos próximos governos, diz Schwartsman, pode ser que ninguém queria ser responsável por colocar essas conquistas em risco. Então, o grau de investimento pode gerar incentivos favoráveis à manutenção de uma boa política econômica.

Outra vantagem é que países com Grau de Investimento também têm maiores facilidades para a captação de empréstimos internacionais, com custos menores.



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